quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Imagens_Texturas_Continuação II



Tenho para aqui falado apaixonadamente sobre construção em terra crua e esqueci-me injustamente de precisar que material é este a que me refiro, e focar as diferenças entre o cru e o cozido.
Busco ajuda nos livros porque é para isso que eles nos servem, neste caso faço referência ao nosso homónimo "Arquitecturas de Terra", um "livro sobre arte"editado no final de 1993, como documento escrito da exposição que andou pelo Mundo, esteve na Gulbenkian e mudou a face da Arquitectura de Terra, da autoria do Arquitecto Jean Dethier, duas grandes referências, o livro e o Arquitecto, e deixo-os falar por mim.

"É pois necessário saber que se trata de dois materiais diferentes, não tanto pela origem como pela sua composição e natureza mas sobretudo pelo processo de transformação. Um e outro são recolhidos na camada superficial do solo; as técnicas de extracção, tradicionais ou actuais, são idênticas.
A terra que se destina a ser cozida é essencialmente composta de argila arenosa, rica em componentes silico-aluminosos, que a cozedura transformará. O fogo produz então no material uma estabilização irreversível. A "terra crua", pelo contrário, é um material composto, uma mistura natural de aglomerados, análoga ao "betão magro" vulgar, sem os elementos finos activos.
Em proporções muito variáveis, os cascalhos, as areias e as argilas constituem a terra crua, apta a ser utilizada na construção.
A grande diversidade das terras (…), resulta de uma multiplicidade, de factores: a natureza dos locais (segundo a latitude), a estrutura da rocha mãe subjacente (granito, calcário, etc.), o clima (pluviometria, ensolamento, altitude, calor, frio, etc.),a hidrologia e até o desenvolvimento local da fauna e flora, o grau de transformação do solo pela acção dos seres humanos (agricultura, obras públicas).

A “terra para construção” é sempre extraída abaixo da camada superficial de terra arável, que tem de ser cuidadosamente levantada. Esta é, com efeito, demasiado rica em matérias orgânicas e em elementos coloidais (húmus)
Instáveis, e ainda demasiado submetida a uma actividade biológica, para poder ser utlizada. É na espessura (variável) da camada estrutural do solo (dissimulada aos nossos olhos pela terra orgânica) rica em componentes estáveis (cascalhos e areias) e muitas vezes “limpa” de argilas, que é recolhida a terra para construção. (…)
A terra crua é fundamentalmente caracterizada pela sua granulometria (natureza e quantidade de agregados), plasticidade (aptidão a ser modelada), compressibilidade (possibilidade de densificação e de redução da porosidade) e coesão (propriedade de ligação dos agregados entre si).



Dethier, Jean, Arquitecturas de Terra, Fundação Calouste Gulbenkian Centro de Arte Moderna J.A. Perdigão, pág. 33, Lisboa, 1993

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