quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Arquitectura Contemporânea na Costa Alentejana

Aqui fica uma boa prenda de Natal! Um texto de reflexão sábia, apaixonada e obrigatório, do Arqt.º Alexandre Bastos
Boas Festas!!


"Dedico estas curtas páginas a Manuel Maria Mansos - o Taipeiro que me ensinou a sentir a terra em 1993, a batê-la, a molhá-la, a escolhê-la e a marcar o ritmo, a tornar-me mais culto pela sua sabedoria de vida

A Arquitectura Contemporânea na Costa Alentejana
Sempre alimentámos o nosso imaginário com utopias, com a terra servindo de matéria para a implantação das diversas culturas, sejam elas da simples subsistência à rendibilidade a longo prazo, desde a floresta, às culturas arvenses, do jardim à horta, serve e sempre serviu também de abrigo, da construção de terra ou mesmo da Arquitectura.
Descodificando por momentos a nossa memória, construir quase tudo com quase nada ao custo zero do material, não deixa de entusiasmar, de tal maneira é utópico. Ao contrário de outrora, hoje constrói-se em terra por opção e não por necessidade. Esta diferença marca o sentido da utopia. Infelizmente temos construções medíocres com ar eterno e feliz. Por vezes mesmo com um ar vitorioso esmagando a delicadeza do ambiente, ou das construções adjacentes. Ao planear a obra de taipa tenta-se indiscutivelmente evitar erros que podem sair bem caros e simultaneamente ela é sob o ponto de vista construtivo limitada, quer na altura, quer nas grandes fenestrações, caso não seja bem ponderada. Impõe-nos também uma melhor inserção no terreno por questões económicas e até de coerência perante o respeito cultural.
Cabe aqui citar Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira e Fernando Galhano,”…e até por razões climáticas e económicas, e poderiam constituir ensinamentos estética e funcionalmente utilizáveis, na elaboração de uma arquitectura local racional, na vanguarda de todas as experiencias- isto é: mais actualizada. Em vez disso, porém, vemo-las tantas vezes sistematicamente recusadas como formas desprezíveis, em nome de um tipo de construção de péssima qualidade e de uma hedionda vulgaridade, em que o “modernismo” está apenas na utilização indiscriminada e errada do cimento e do concreto, por gente menos esclarecida que, nessa recusa dos valores antigos, julga afirmar a sua superioridade que é apenas ignorância.”Edição de 1969.

A Arquitectura de terra e a terra na Arquitectura tem a sua expansão sobretudo a partir dos anos 90, no Litoral Alentejano. Enfim não tão litoral quanto isso, pois será mais correcto dizer a 10 ou 15 km da linha de costa marítima para o interior. Tem uma razão de ser. Junto ao Litoral, (tanto no concelho de Odemira como em Santiago, Sines) o solo não é muito propício. É constituído por areias, sem xisto nem argila. Claro está que existem excepções, mas esta é a regra. Se verificarmos as pré-existências, veremos que estas estão mais destruídas no Litoral e menos a 10/15km da costa. Por vezes mesmo usando taipa de areia, muitas das coberturas originais eram de estrume, bocados de cortiça, estormo, caniço, ou seja muito leves. A parede de taipa de areia trabalha muito mal à torção e tracção e resiste menos às chuvas, o seu índice de plasticidade é fraco. A altura é limitada por razões óbvias. Os gigantes são frequentes. Os vãos reduzidos.
Recomeça a Taipa sensivelmente com algumas experiências aqui e ali sem grande significado por volta de 87/88.(depois de um interregno a partir da década de 50) Marco decisivo foi o ano de 1993 no Litoral Alentejano, por várias razões: primeiro, porque se concretizou uma obra de taipa, actual ao tempo (projecto de 1992 e obra 1993), dum atelier de pintura, que veio a ser exposta na “7ª Conferência Internacional sobre o estudo e conservação da Arquitectura de terra”, que se realizou em Portugal, na cidade de Silves.
Segundo factor, foi a publicação de um artigo do historiador Dr. António Quaresma sobre esta obra, no jornal “Noticias de Odemira”, (nº 31 de Dezembro de 1993), que como é óbvio teve leitores. Este artigo tinha por base recordar a memória do tempo, lançar um desafio, sensibilizar o anónimo, os técnicos e os próprios políticos.

De seguida, outro artigo é publicado no mesmo jornal, (nº32 de Janeiro/Fevereiro de 1994), que vem explicar tudo acerca da técnica, dos tempos e dos custos e também publicado no Bulletin de Information 1995, no 16-17, Projet Gaia. Simultaneamente esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian a exposição “Arquitecturas de Terra” – o futuro de uma tradição milenar – Europa, Américas e Terceiro Mundo”, concebida pelo Arqt.º Jean Dethier para o Centro Georges Pompidou.
De facto faz-se taipa para o mercado de habitação, que funciona normalmente, seja ela a primeira ou a segunda habitação sendo este tipo de construção pioneiro. É no atraso de Portugal diria, (quase tão perversamente no conceito abstracto e concreto na sua expressão, como Yourcenar) que está a sua grande modernidade.
“ De todas as modificações causadas pelo tempo, nenhuma afecta tanto as estátuas como a alteração do gosto daqueles que as admiram” - Marguerite Yourcenar.
Até mesmo na sua expressividade, seja interior ou exterior como por exemplo: a taipa fica à vista ao invés de ser rebocada, no interior irá impor-se um vector de força no seio de todas as paredes brancas…etc. A Taipa, dá-nos uma possibilidade criativa, tanto como na pintura… O pintor Eduard Hoper oferece-nos essa liberdade de pensar para além das figuras expostas. Que se passa? Será que eles?…,…de que estarão eles a falar?… e a casa? Isto será ruína ou uma ampliação?…Ou será que ainda está em construção?…Será que posso fazer a minha casa apenas com terra.?..Esta utopia alimenta o Homem e é irrelevante quanto à nacionalidade. O belo texto de Léon Krier L’amour des ruines ou les ruines de l’amour, fez-me lembrar o arquitecto perante o destroço , a pré-existência… penso, salvo isto ou não, ponho-a em evidência ou integro-a como se nada fosse…sonho.
E é isso que interessa na Obra, para o arranque do estímulo do projecto e também da vidara intensidade do percurso artístico e os vectores da criação é que podem ser explicados. E serão sempre diferentes em cada arquitecto.
A taipa ajuda a pôr a nossa imaginação em funcionamento - vou fazer um buraco aqui agora, ou depois de construída, - vou fazer um baixo-relevo, ou vou usar pigmentos coloridos pela ordem que entender, junto tijolo á vista e reboco ou não, ponho-a lisa ou texturada, posso também caiá-la sem mais. etc. Também posso diminuir ou aumentar a espessura, criar mais inércia numa determinada orientação solar. Porque não? Basta-me aumentar o frontal.

É a manufactura, o artesanato, mobilidade e a liberdade de criar, basta encontrar empatia com o cliente e os operários que aliás só têm a ganhar com o vocabulário. Estamos a usar a técnica ( com toda a possibilidade de introduzir materiais actualíssimos, ferro, betão, madeira e por aí fora) para dar valor ao sentido artístico e estético da obra - a Arquitectura!
Nunca os arquitectos pensaram tanto na construção e na destruição. Ora a tradição indica-nos e ensina-nos que as casas nascem, vivem e morrem ou falecem. Esta utopia da construção permanente, ser efémera (ou poder ser), ou ser eterna, modifica o conceito de construção e sobretudo de arquitectura. Significa outra utopia, a liberdade plena, a grande mobilidade na taipa, de a modificar para as gerações vindouras, e com um material eterno, fazer o efémero, e ainda outra utopia, aproveitar a mesma matéria fazendo-a renascer.
Digamos que a terra, a casa, a arquitectura acompanham as gerações, neste caso até, o mesmo pedaço-matéria-terra. (quase verdade não fosse a legislação do PROT e Parque Natural cercear essa liberdade, duma forma usurária, quanto aos limites de construção, não contemplando minimamente o que é uma área digna e razoável de habitabilidade).
O que se passa neste momento no litoral alentejano e na nossa contemporaneidade é um movimento de arquitectura que não se baseia apenas em aspectos formais e na expressividade, transcende-os, nasce na ruralidade nos finais do séc. XX, princípios do séc. XXI, mas vem das cidades, das culturas ditas eruditas, ou mais esclarecidas, que vão preservar a memória do tempo, do anónimo, dos diferentes extractos socioeconómicos, etc., que preservam o ambiente, que são preocupadas, pouco consumistas, enfim, um movimento cívico, consciente a que me é indiferente se é por moda ou não.
De qualquer modo contribui para o mesmo fim. Sem materiais estranhos à natureza preserva o ambiente. Não gasta energia inutilmente, não se impõe, mas absorve a cultura local, respeita e muito lentamente cresce, quase sempre silenciosamente.
É em suma, por tudo isto, uma arquitectura contra-corrente, Contemporânea de certeza, - a terra – feminina, cheia de inovação e perfume.”

Arqt.º Alexandre Ereira Bastos

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

TERRATECTURA 2011


Seminario- Taller de Arquitectura y construcción en Tierra, a realizarse del 18 al 20 de Mayo de 2011 en Bogotá, Colombia
Organiza: Asociación Colombiana de Facultades de Arquitectura (ACFA) y Pontificia Universidad Javeriana- Bogotá
Objectivos:
Principal
Difundir y capacitar a los participantes con una visión eco-sostenible,sobre las posibilidades que brinda la construcción en tierra, exaltando la importancia de transferir saberes y tecnología.

Específicos
Exponer los avances en investigación y construcción de la tierra como material de construcción en el mundo y en Colombia.
Identificar los diferentes sistemas constructivos empleados en las edificaciones en tierra y sus características estructurales.
Conocer las propiedades físico- mecánicas de la tierra como elemento estructural y su comportamiento ante eventos sísmicos.
Comprender y facilitar experiencias sobre transferencia tecnológica con tierra como recurso material que aporta a un ambiente integral.
Temáticas:
1. Arquitectura Moderna: Nuevos proyectos y sustentabilidad
2. Patrimonio y restauración: Investigación e intervención
3. Transferencia Tecnológica: Educación, formación y capacitación
4. Ecosostenibilidad: Proyectos sustentables y sostenibles




Recibo de ponencias hasta el 25 de Enero de 2011 en terratectura2011@gmail.com

domingo, 5 de dezembro de 2010

NATAL2010@ArquitecturasdeTerra


NATAL no ArquitecturasdeTerra
Este ano uma vez mais, o Mister Winter chegou com muito frio e chuva para dar e vender pelos nossos lados!

Lá em casa já iniciámos as "fraternidades" com as decorações "natalinas" e temos notícias por Maria Edineuza de "barrigão" e seu José do Bonfim de que em Belém do Pará as palhinhas já estão aquecidas e está tudo gostoso e confortável (pq as paredes são em taipa!) para receber o "minino Jésuis"!
A mirra, o oiro e o incenso foram este ano encomendados pela internet (www.reismagos.com) e já vão a caminho!
A equipa do ArquitecturasdeTerra deseja a todos os amigos e familiares um Feliz Natal e um Ano Novo de 2011 sem crises...pleno de saúde, paz e alegria!

Arq_Terra_Casa Sanitas_Colorado_USA




Projectada pelo Pyatt Studio, a "Casa Sanitas", em fase de construção, apresenta-se como a primeira habitação a ser construída em "insulated rammed earth" na cidade de Boulder, Colorado, USA.
Fonte das imagens : http://www.pyattstudio.com/

Earth Architecture | Mud, Stone & Shale Conference_2011

THE UNIVERSITY OF HADRAMUT FOR SCIENCE & TECHNOLOGY MUKALLA & DA‘WAN MUD BRICK ARCHITECTURE FOUNDATION
Are pleased to announce the Second Conference on Mud Brick Architecture to be held in Hadramut in 2011 under the title: Earth Architecture Mud, Stone & ShaleThe conference will provide a platform to discuss and exchange information amongst international architects, academics, participants and foundations on the condition of past and future cities with innovative and creative projects in construction and design including a wide spectrum from Chile to India.
This intends to create an important link and exchange between North and South, east and west, where the technology architectural language and environment of earth architecture requires to be more seriously and effectively implemented.
The fact that it is being held in the heart of the kingdom of mud brick architecture, Valley of Hadramut, serves a significant case in point.
Venue: Say’un, Wadi Hadramut Republic of Yemen
Dates: 28 February – 4 March 2011
Official Language English & Arabic for presentation - (Papers in French will be accepted for publication in the Conference proceedings).
Conference Themes:
1. Architectural Rehabilitation and Development
2. Modern & Contemporary Buildings: Innovation, Construction and Design (Case Studies and Projects)
3. Yemeni Cities & Vernacular Architecture at Risk: Dilapidation, Destruction & Flood Damage
4. Future Use of Restored Residential Clusters & Heritage Landmarks
5. Environmental Issues: Sustainable Planning Methods & Guidelines
Attending international participants include leading specialists, academics and architects from India, Chile, Portugal, Italy, UK, Morocco, Algeria, Egypt and France.
Queries please contact Salma Samar Damluji at: salmasamar@damluji.org

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Filme_Dirt!



Este é um pertinente filme sobre a relação do homem com a terra.

Mostra-nos como a terra (seja fértil, para contrução ou o planeta) e os seres humanos não poderiam estar mais próximos. Somos feitos do mesmo material.

Biliões de anos de evolução fizeram da terra a fonte viva de toda a vida na Terra.

A terra dá-nos comida, casas, combustível, medicamentos, cerâmicas, flores, cosméticos - tudo o que é necessário para a nossa sobrevivência.

Estamos hoje, no entanto, a destruir o nosso último recurso natural com a agricultura intensiva, com a exploração excessiva de recursos fósseis, com o exagero cego de produzir mais e mais, sem olhar para o que produzimos e como o fazemos. Nas nossas cidades lutamos por uma árvore, por um pedaço de terra para cultivar couves e batatas, por um pouco de ar respirável.

Precisamos trilhar por outro caminho, por outro futuro, localmente, pensando de modo universal.

A terra continua debaixo dos nossos pés e tem uma resposta!!)

Curso ArquitecturasdeTerra_Nov2010_Agradecimento


©Rui Vieira

O ArquitecturasdeTerra quer agradecer a todos os que com entusiasmo e empenho participaram no curso ArquitecturasdeTerra, no passado mês de Novembro.

Aos formandos Célia Gonçalves, ao Filipe Azevedo, ao João Miquel, à Marina Félix, à Patrícia Pereira, ao Paulo Jacinto, ao Ricardo Encarnação, ao Rui Vieira, à Sara Dias e ao Tiago Gonçalves, o nosso sincero agradecimento por partilharem activamente connosco esta paixão pela terra!

O bom ambiente entre todos e os resultados dentro e fora do taipal estiveram à altura das nossas melhores expectativas!!)

Agradecemos também à Cooperativa de formação Arqcoop todo o apoio de organização e logística do curso, e vamos no futuro continuar a promover convosco a construção com terra em Portugal!

Aqui ficam também para os curiosos algumas fotografias tiradas durante a componente prática da formação: