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21 setembro 2023

FF – Distance Edition: Rael San Fratello

Link to Youtube Here https://youtu.be/iyxOjBsNhLE?si=NAJR8dpuz3yIKFMX
The Architectural League’s monthly First Friday events are informal social gatherings that allow members to visit the offices of leading design practices and see work in progress. On 2020 November 5, the League paid a visit to rural Colorado to learn about Rael San Fratello’s Casa Covida, a 3D-printed house made of mud taken from the site. 
Partners Ronald Rael and Virginia San Fratello gave a tour of the project and discussed its relation to their wider body of work, including their long exploration of earthen architecture.
They also guided viewers through their workshop, explaining how experiments with small-scale 3D-printed pottery contributed to the house’s development. 
The presentation is followed by a Q+A moderated by Christina De León, associate curator of Latino Design at the Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum.

01 abril 2022

Documentário_Muddle Fuddle Building. Building with Earth, Tradition and Innovation

 https://content.gulbenkian.pt/inarte/videos/reg.392_VC465_Muddle_Fuddle_Building.mp4

Documentário_Muddle Fuddle Building. Building with Earth, Tradition and Innovation

Documentário realizado no âmbito da Exposição «Arquitecturas de Terra ou o Futuro de uma Tradição Milenar. Europa, Terceiro Mundo, Estados Unidos», patente no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, em 1993.

O documentário regista testemunhos e depoimentos de vários arquitetos internacionais, em torno do tema dos materiais de construção e, especialmente, da terra enquanto material milenar para a construção de casas, a par de outros materiais «mais comuns», mas não mais eficazes ou duradouros. São evidenciados os prós e os contras de vários materiais, nomeadamente nas vertentes económica e ambiental.
Na nota introdutória da obra editada em português, no âmbito das conferências internacionais acerca do tema, José Sommer Ribeiro afirma: «Realizando-se a 7.ª Conferência Internacional sobre o Estudo e Conservação da Arquitectura de Terra “Terra 93” e, dado o interesse com que mundialmente tem vindo a ser estudado este sistema de construção, a Fundação Calouste Gulbenkian considerou oportuno apresentar a exposição “Arquitecturas de Terra ou o Futuro de uma Tradição Milenar. Europa, América e Terceiro Mundo”. [...] Esperamos que a presente exposição, que nos mostra não só o passado mas também o futuro que as construções de terra nos podem proporcionar, constitua um incentivo à criatividade dos nossos técnicos.» (Arquitecturas de Terra..., p. 4).
https://gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes/audio-visuals/392/
Realização: Jean-Pierre Mitrecey
Edição [s.l.]: Comission des Communautés Européenes, 1987
Duração: 16 min 15 s
Participante(s): CRATerre - Centre International de la Construction en Terre, Jean Dethier, Jean Mussoni, Patrice Doat
Proveniência: Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / VC 465
Direitos: 
Biblioteca de Arte Gulbenkian /Fundação Calouste Gulbenkian

24 março 2022

Conference_Design Talks_Francis Kéré


African architecture should stop copying the West, engage the real needs of the people and regard the environment, says Diébédo Francis Kéré.
Looking at the housing situation in West Africa, architect Diébédo Francis Kéré (Kéré Architecture) says that Africans should stop imitating the Western way of building and rather adapt it to their own needs – and the needs of the community – in order to cope better with the weather patterns in the region. Due to the lack of a secure income, people build their houses themselves... and as models, they just copy the neighbouring house. In this part of the world, we only have one school for architecture, says Kéré. Kéré believes the built environment in Africa should adapt to nature, while maintaining the cultural richness of the people. He talks about his dream to make things better in his home country of Burkina Faso and tells how he has been introducing traditional building techniques that allow for natural ventilation to the communities in West Africa. By giving the community a framework within which to work, he encouraged the people of Burkina Faso to build houses that breathe. Looking at various architectural projects in West Africa, Kéré points to the merits of clay building techniques.

23 março 2022

Miguel Ferreira Mendes_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 24/02/2022
Miguel Ferreira Mendes
'O intenso calor de Julho apenas é cortado por uma pequena brisa do Atlântico, não muito distante dali. Um pequeno grupo de jovens, debaixo de um razoável sobreiro, abre com cuidado a caixa de madeira (taipal) que deu forma ao bloco de taipa que se revela pela primeira vez aos seus olhos curiosos. A terra nua e crua que se destapa é apreciada, tocada, cheirada, como se de uma obra de arte se tratasse.
Os trabalhos são seguidos de perto pelo arquitecto Miguel Ferreira Mendes, o formador do curso de construção em taipa organizado pela Ordem dos Arquitectos, que eu tive o prazer de receber no picadeiro do nosso turismo rural em São Luís, para o último dia do curso, destinado à componente prática.
Se a construção em terra tem levado o Miguel aos quatro cantos do mundo, regressa sempre que pode a Odemira, um dos locais onde a aventura deste tipo de construção começou para ele.
Antes da aventura, o Miguel trabalhava na Câmara Municipal de Évora onde, na ocasião de um atendimento técnico, conheceu o arquitecto Alexandre Bastos, que já referi várias vezes por ser um dos pioneiros da retoma da construção em taipa nos nossos dias. A reunião acabou e o Miguel, que já se interessava por construção em terra, ficou com a certeza que Odemira era a sua próxima paragem!
Já a trabalhar no atelier do Alexandre Bastos conheceu a saudosa Teresa Beirão, arquitecta com quem embarcou para Moçambique, para o primeiro programa de ajuda externa de habitação em países carenciados.
Rui Graça - Ao contrário do que eu tenho dito várias vezes, que a taipa é um "produto" regional, levaste-o na bagagem para o aplicar em Moçambique. 
Seria interessante explicares como correu esse processo, o que se aproveitou da nossa cultura e o que chocou com ela.
Miguel Mendes - Entendo bem o que queres dizer com "produto regional"... e, no caso do Alentejo e de Odemira em particular, é-o sem qualquer dúvida... mas a verdade é que a taipa é como a gastronomia ou a música: é um produto regional de todo o lado, com especificidades decorrentes do contexto físico, social, económico, cultural, ambiental, etc. De resto, como toda a construção em terra ou, se quisermos, qualquer cultura construtiva local.
Quando o projecto de Moçambique teve início, em 2005, eu já tinha feito as minhas primeiras construções em terra dez anos antes, num contexto experimental e académico que foi a minha infância neste domínio; mais tarde, vivi um processo de descoberta ... a juventude... trabalhando com os arquitectos Alexandre Bastos e Teresa Beirão; em seguida, fiz o post-masters do CRAterre, onde o carácter científico e experimental me permitiu passar à idade adulta. Quando aterrei em Moçambique, mais do que dominar uma técnica (taipa, ou outra), eu já conseguia compreender um material (terra) e entender quais os aspectos que podem e devem ser relevados ou atenuados num ou noutro contexto... nas palavras do arq. John Turner: "um material não vale pelo que é, mas pelo que pode representar para a sociedade".
E a inteligência e a sensibilidade, tal como a terra, também têm índice de plasticidade : se ele é pequeno, tudo se esboroa; se é muito grande, corremos sérios riscos de "fissura após secagem". Ou seja, uma intervenção do género da que decorreu em Moçambique deve, na minha opinião, deixar sempre lugar a que essa inteligência e sensibilidade vão moldando o processo à descoberta do contexto... e essa descoberta é mútua e interativa, porque os destinatários directos deste tipo de programas têm também o seu próprio processo de descoberta, aprendizagem e decorrente reacção, ao longo do projecto, e com isso vão também moldando o próprio contexto, numa evolução em simbiose.
É muito frequente eu fazer comparações entre a arquitectura e a música, e aqui também me parece que poderia simplesmente dizer que isto é jazz... sabes as escalas, os modos, a linguagem, os recursos técnicos e linguísticos, etc.; dão-te um tema, eventualmente um ritmo e uma harmonia; agora improvisa! E fá-lo como julgas ser melhor para os restantes músicos que estão em palco contigo, para o público e para ti próprio.
Ou seja, eu e a Teresa fomos a Moçambique fazer jazz :).
E sabes que mais? Desde o projecto, ao local de implantação, ao programa, às práticas, aos conteúdos, aos próprios participantes, tudo acabou por ser deliciosamente diferente do que estava previsto... nem a mais pequena previsão se concretizou. Pessoalmente, isso foi uma experiência extraordinariamente enriquecedora e o grau de nada que tínhamos (todos) à chegada, comparado com os resultados que conseguimos (todos) obter... e que duram até hoje... fez com que, desde então, eu só receie projectos e missões onde tudo insiste em bater certo desde o início.
RG - A partir de Moçambique, formaste uma ligação muito sólida com a Associação "CRAterre". Será que podes explicar o objectivo desta organização e a importância da mesma para o conhecimento e aplicação de construção em terra a nível mundial?
MM - Na realidade, a minha ligação ao CRAterre pouco tem a ver com Moçambique, eu estudei no CRAterre e comecei com algumas colaborações com esta organização ainda antes de ir para Moçambique. Mas, de facto, a experiência de Moçambique, pelas razões de que falo atrás, deu-me um ânimo incrível para ir para quase qualquer tipo de contexto com um grande optimismo... digamos que o meu factor desenrascanço sofreu um sério incremento, em Moçambique.
O CRAterre é a grande referência mundial, a nível da construção em terra, e entidade pioneira da sua retoma no mundo ocidental, com início de actividade nos anos 70. É uma entidade "tridimensional": é um laboratório de investigação e experimentação, sediado na ENSAG - Escola de Arquitectura de Grenoble (França) e integrante da Unidade de Investigação Arquitectura, Ambiente & Culturas Contrutivas (AE&CC); é a entidade que, na ENSAG, dá formação, nomeadamente, o DSA (post-master, 3º ciclo), com uma frequência bianual, e que forma alunos licenciados (sobretudo arquitectos e engenheiros, mas também geólogos, artistas, antropólogos, etc.) de todo o Mundo, em arquitectura de terra e desenvolvimento sustentável; e é uma associação (do tipo ONG), que desenvolve e participa em projectos de Património, Habitat e Materiais com vários parceiros e contextos em mais de 100 países, até hoje. A minha relação com o CRAterre é antiga e múltipla: estudei no DSA de 2000-2002, sou membro da associação ONG, e faço parte da equipa, há vários anos, quer enquanto membro da equipa de projectos, quer enquanto investigador associado do laboratório. Em termos concretos, representa uma boa fatia da minha actividade profissional, sobretudo no que toca a missões e projectos em diversos países e contextos.
Relevaria três aspectos, da actividade do CRAterre: um enorme conhecimento adquirido e competência; uma base ética e filosófica inabalável e que se reflete na operacionalidade; uma capacidade (cultivada) rara em trabalhar com os parceiros e as populações de forma horizontal, sem processos de 'endoutrinamento' e em processo de valorização e aprendizagem mútuas. Isto dá uma dimensão humana e filosófica à construção com terra que me parece indispensável.
RG - A tua ligação à "CRAterre" abriu-te portas para vários destinos exóticos. Obviamente que nessas andanças de "arquitecto sem fronteiras" deves ter coleccionado experiências inesquecíveis. Podes contar-nos algumas dessas experiências que mais te marcaram?
MM - Teria muitas e muitas horas de coisas para contar! São mais de 15 anos e dezenas de missões, em contexto de carência, desenvolvimento, pós-catástrofe, na maior parte das vezes realizadas a solo, com os parceiros locais ou a população local. O que marca mais? A raiva, perante a miséria extrema das populações, que não consegues explicar! O horror, perante os escombros físicos e humanos de uma catástrofe natural! A desolação perante o olhar longínquo dos migrantes e deslocados! A impotência dos carenciados, face a fenómenos de poder viciado e corrupto! Tudo isso marca, de forma indelével...
Mas o optimismo deve ser 'defeito de fabrico' de quem anda nestas coisas (ou não andaria), e acaba por me marcar bem mais, coisas como a astúcia e a nobreza com que as populações e as pessoas fazem face a situações que arrepiariam o lombo a qualquer europeu, ou a inteligência das estratégias que desenvolvem para o seu quotidiano, ou ainda a ironia, por vezes trágica, que existe nas entrelinhas dessas vidas.
Em 2016 estive envolvido no projecto de construção de campos de refugiados no norte da Síria. O projecto era promovido pelo Crescente Vermelho (correspondente à Cruz Vermelha, em países muçulmanos) do Qatar. A minha missão, enquanto perito CRAterre, era de acompanhar o processo de definições construtivas e de projecto urbanístico e arquitectónico, nas suas variantes. Curiosamente, nessa situação, foi por meu conselho que eles abandonaram a ideia de construir em taipa... uma técnica totalmente exógena e desconhecida pelos intervenientes, excepto a partir de fotos... e passaram ao adobe, que é uma técnica ancestral naquela região, bem mais adaptada ao clima e à terra disponível (daí, ser ancestral, está bem de ver). Na totalidade dos sítios por onde ando e andei, há um fascínio pelo brilho das coberturas em chapa... que trazem uma ideia de modernidade e sofisticação, um fogo-fátuo de civilização... e uma rejeição liminar pelas coberturas em fibras (colmo, palha, etc.). No Haiti, na Guiné-Bissau, em Madagáscar, em Moçambique, no Nepal, etc., toda a gente tenta ser criativa na formulação de razões pelas quais alegam que as coberturas em fibras não funcionam, e torna-se impossível fugir à chapa ondulada, sob pena de descredibilizar todo um processo por causa de um "pormenor". De repente, na Síria, deparo-me com um pedido expresso de que as coberturas sejam planas, em terra. Fiquei extremamente motivado, quer pelo entusiasmo de realizar tal solução construtiva, quer pela constatação de que estava perante pessoas que, deduzira eu, já tinham ultrapassado os estigmas em relação aos sistemas vernaculares. Só não entendi porque reagiram com frieza à minha exultação. Percebi, quando me explicaram que, num passado muito recente, tinham construído campos de refugiados com coberturas em chapa, e que, ainda mal estavam ocupados, e já estavam a ser bombardeados por aviões que usavam o brilho da chapa como 'detector' e mira.
É natural sermos confrontados com coisas muito más e duras. É natural termos um certo sentimento de vergonha alheia, em nome da humanidade, por haver seres humanos a viver em tais condições. É natural sentirmos angústia e inconformismo, quando nos confrontamos com tamanhas assimetrias e injustiças. É natural sentirmos raiva e medo, quando somos ameaçados, como fui, por um alto funcionário do estado de um PALOP, ao assistir a uma aula minha numa universidade local, em que eu apregoava as técnicas construtivas com materiais locais como ferramentas de emancipação e autogestão das comunidades. Mas quando se vem de cepa optimista e inconformista, esses sentimentos servem para estimular a não parar nem desistir.
O que marca para a vida, na realidade, são coisas como ver uma criança de um bairro de lata malgache a desenhar, riscando a pele negra do joelho com um pequeno pau apanhado do chão, com um brilho nos olhos que não se vê em muitos alunos de artes em colégios caros da Europa; ou ver a zona do Grand'Anse (sudoeste do Haiti) pejada de casas construídas a partir dos ensinamentos retirados das que eu e os rapazes que andei por lá a formar tínhamos andado a fazer por aquelas bandas, uns anos antes, porque essas resistiram ao ciclone que entretanto passou, enquanto tudo à volta ficou arrasado; ou ver a efusividade das crianças nas escolas degradadas das montanhas do Burundi perante a passagem de uma hipótese, que é o que alguém como eu, na posição em que lhes surjo, representa para eles.
Mas não posso deixar de referir uma das situações mais gratificantes que tive a extraordinária oportunidade de viver: em 2013, estive em Moçambique, por causa de um projecto para uma escola artística para as crianças dos bairros de lata de Maputo (construção em terra, executada pela comunidade). Resolvi ir visitar o bairro de Mumemo, onde tinha estado a trabalhar oito anos antes, no projecto com a Teresa Beirão. Os jovens que eu tinha formado e que participaram na construção do edifício de demonstração, em 2006, estavam todos para fora, tinham-se mudado, tinham formado família, etc. (alguns, com destino menos bom). Deparei-me com uma série de casas construídas em BTC, com blocos idênticos aos que esses jovens tinham aprendido a fazer comigo, oito anos antes. Fui ao local onde costumávamos produzir esses blocos, em 2006. Encontrei alguns jovens, de volta de 3 prensas, muito semelhantes àquela que tínhamos conseguido desencantar da África do Sul, em 2005, mas não exactamente iguais. Parei e fiquei a olhar. Um dos jovens meteu conversa "estás interessado?" ao que eu respondi que sim. Sem mais, o rapaz começou a explicar-me que aquilo eram blocos de terra comprimida, que eles faziam com umas prensas que eles próprios tinham fabricado, a partir de uma muito velhinha que tinha sido comprada numa formação que tinha havido há uns anos, em que um português tinha vindo ensinar como se fazia, e então agora eles produziam blocos e tinham construído várias casas no bairro. Quando apareceu um dos mais velhos, fui desmascarado, entre galhofa geral, e terminámos todos a fazer blocos, em jeito de brinde "à saúde". Este momento teve particular impacto em mim, por ter sido a constatação "ao vivo e a cores" da total apropriação da técnica, dos saberes e das práticas, pela comunidade, tendo inclusivamente fabricado réplicas melhoradas da prensa, com pequenas alterações que consideravam melhorias. Recebi uma dose extra de motivação, naquela tarde moçambicana!
RG - Finalmente, não pude deixar de reter da tua formação que, de todas as técnicas de construção em terra que foste "coleccionando" no teu percurso, Adobe, Blocos de Terra Comprimidos, vulgarmente designados por BTC ou Cob, para mencionar as mais relevantes, é a Taipa que eleges como favorita. Será que por ter sido o primeiro amor, no nosso Alentejo litoral, ou a taipa é mesmo especial?
MM - Em bom rigor, não foi a primeira dessas técnicas que experimentei. E, na verdade, será mais justo dizer que a minha técnica favorita é aquela que mais sentido faz, naquele contexto... e entenda-se "fazer sentido" como algo plural e não apenas tecnicamente, mas também social, economica, cultural, ambiental, emocional e eticamente (etc.).
A relação com o material terra tem uma particularidade que é o que verdadeiramente me apaixona! a descoberta contínua. A cada projecto, a cada sítio, a cada contexto, temos de repensar tudo. E o que é curioso, é que não temos de inventar quase nada, só temos de saber ver, sentir, pensar.
Há uma abordagem ética que me faz optar sempre pela técnica mais pertinente, nos termos em que falo acima. Mas há uma exultação emocional quando, combinando as variáveis, o resultado dá taipa.
Não me lembro onde ouvi a história de um casal que, certa noite, tinha ido passar um serão a casa de amigos e, ao regressar, o marido, meio taciturno, diz à mulher que não tinha apreciado a forma como, em determinada discussão, ela tomou o partido do seu oponente, em vez do seu; ela respondeu-lhe que, quando se casou com ele, não lhe prometera estar sempre do seu lado, mas sim estar sempre ao seu lado. Será esta, porventura, a minha relação com a taipa.
De facto, tenho uma relação emocional e sensorial altamente íntima com a taipa. Considero-a de uma sofisticação tremenda mas, simultaneamente, de um "primarismo" desconcertante. Chamar-lhe-ia "sofisticadamente elementar". Como tudo o que é genial, a taipa encerra uma simplicidade avassaladora... sobretudo na sua forma tradicional (modular e manual): apaixona-me a ideia de conseguir construir uma casa inteira usando apenas "dois pedaços de madeira".
Conclusão:
Se felizmente, no nosso país, muitas das situações que o Miguel descreve estão ao nível da ficção, a situação de um Sírio ou um Moçambicano que queira construir uma pequena casinha no nosso país também pode ser para eles um filme de ficção, com algumas passagens de terror.
A guerra no nosso país trava-se nas diversas instituições, agora em formato digital que, ao contrário de simplificar o processo, tem aumentado as dificuldades, mesmo para os mais destros informaticamente. Para ter uma amostra do que se exige para a construção da mais pequena casinha, a mesma tem de ser duplamente certificada energeticamente, pelo engenheiro habilitado que elabora o projecto e pela entidade que o confirma. Deverá ter um plano de segurança e saúde específico mesmo que a empresa construtora tenha obrigatoriamente normas de actuação e formação na área. Já não basta uma ficha preenchida por técnico habilitado para executar a instalação eléctrica, actualmente para praticamente todas as construções, já se exige projecto eléctrico e ainda relativamente à energia, queira ou não queira o proprietário utilizar gás, terá sempre de entregar um projecto desta rede de energia, novamente certificado por uma entidade idónea que confirme o previsto por técnico habilitado.
À carga burocrática vai juntar-se a dificuldade em encontrar um empreiteiro que esteja habilitado para a realização da obra, como se imagina também ele submerso em burocracia, em exigênciaS técnicas e em garantias legais.
Mesmo que acreditemos que nas futuras casas não vai haver frio ou calor, que ninguém se vai magoar e que nunca vão ficar mal na paisagem, muitos alentejanos devem estar mais a pensar na famosa história do burro do cigano (que estava a habituá-lo a não comer) que quando já estava quase ensinado morreu, ou seja, as exigências até podem melhorar muito as casas mas em breve nenhum cidadão comum poderá pagá-las!
As dificuldades para a concretização de uma pequena habitação neste momento já são enormes e ainda assim não se consideram aspectos fundamentais como a eficiência hídrica ou a sustentabilidade dos materiais empregues.
Se não encontrarmos uma forma para a realização expedita e prática das casas mais pequenas, apoiada nas práticas populares e tradicionais, não descurando o incrível património imaterial da construção em terra, dando mais autonomia e confiança precisamente aos profissionais no terreno, vão-nos começar por impingir o "fast-food" da construção (como já acontece), as soluções fáceis de pré-fabricados e casas modulares, grande parte importadas e muito pouco amigas do ambiente, apesar de todas se apregoarem "eco" (podemos estar já a assistir à destruição silenciosa do importantíssimo sector da construção civil no nosso país). Nessa altura esperemos que o Miguel Mendes e os seus amigos do CRAterre nos possam vir ajudar a pegar novamente nos maços porque vamos estar sem casas e sem dinheiro.'

17 março 2022

Diébédo Francis Kéré_Pritzker 2022

Em tempo de ditadores e invasões irracionais e atordoados por uma guerra inaceitável, eis que uma notícia de rodapé nos jornais internacionais nos deixa felizes, o arquitecto Diébédo Francis Kéré recebeu esta semana o Prémio Pritzker 2022.
Sucede assim a Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal na atribuição deste prestigioso prémio, pela autoria da sua obra em África composta por uma síntese subtil de recursos tradicionais como a terra e técnicas modernas de construção como o BTC, a taipa e os adobes. Esta tem o valor de um exemplo para todos os arquitectos pelo Mundo, num momento em que, como nunca, é tão importante repensarmos a relação das construções com a natureza e a qualidade ambiental dos espaços onde vivemos.
Diébédo Francis Kéré
Natural do Burkina Faso, Diébédo Francis Kéré, nasceu em 1965 e é autor de uma dezena de obras, a maioria construída no seu país, recebe agora este prémio por todo o seu trabalho. Graças a uma bolsa de estudos, este filho mais velho de um chefe de aldeia - foi instruído como carpinteiro (num país com pouquissimas florestas) e como tal, foi então o único autorizado a matricular-se na escola - podendo mais tarde sair para o estrangeiro e seguir o ensino na Universidade Técnica de Berlim. Formou-se em Arquitetura em 2004.
A escola primária de Gando é o seu primeiro projeto, iniciado em 2001. Construído num modelo colaborativo com e pelos próprios moradores da aldeia, o edifício é feito em construção de tijolos de BTC, com adição de uma pequena % de cimento (estabilização com aprox. 8%), apenas para garantir maior solidez das paredes e durabilidade à humidade. Um sistema de telhado duplo permite ainda a ventilação natural dos interiores: um telhado metálico é colocado sobre uma treliça estrutural, ele próprio apoiado sobre uma abóbada de tijolos em pré-esforço. A sucção do ar natural é produzida pelas diferenças de temperatura entre os diferentes volumes.
Ao combinar as práticas vernáculares do seu país de origem e os conhecimentos de bioclimática adquiridos durante os seus estudos, Francis Kéré liberta o desenho e a arquitetura das lógicas económicas globalizadas para ancorá-la no seu contexto e produzir espaços com identidade, extraordinriamente bem adaptados ao clima subsahariano do Burkina Faso.
A ampliação dos espaços de obras para a participação de toda a comunidade torna-os locais de emancipação individual e auto-desenvolvimento social.
Seguindo estas preocupações ambientais e sociais, a escola secundária Schorge em Koudougou (Burkina Faso, 2016) foi projetada à maneira de uma vila tradicional. É composta por nove módulos retangulares dispostos em círculo em torno de um pátio, que também serve como praça pública.
No centro do projeto estão os diferentes dispositivos implementados para garantir tanto ventilação natural, proteção contra radiação solar e filtragem de luz. Na periferia dos módulos, uma galeria coberta feita com troncos de eucalipto constitui uma primeira barreira térmica e um espaço sombreado.
Vencedor do Prêmio Global de Arquitetura Sustentável em 2009, Diébédo Francis Kéré é deste modo o primeiro africano a receber o Prêmio Pritzker. Em 2013 a sua obra foi objeto de uma grande retrospetiva , no Arc-en-Rêve, em Bordéus e que pode ser revista aqui.
Parabéns ao arquitecto Diébédo Francis Kéré e toda a sua equipa!

14 março 2022

Webinar_Natural Materials Masterclass: Building with Earth_ACAN

 
Webinar_Natural Materials Masterclass: Building with Earth
7th October 2021
This webinar talks about clay plasters, earth blocks, rammed earth and chalk, cob, and most importantly, how we can use these materials in our building projects. 
In the webinar, we hear from expert speakers: 
Rowland Keable - EBUKI & Rammed Earth Consulting 
A founding member of EBUKI, Rowland works towards earth in the mainstream of construction. This includes being an active member of a European skills group working on training standards for earth structures. He has worked with rammed earth technology since 1985 including Passivhaus local authority classrooms, and he has written earth construction codes and standards in the UK, Europe and Africa. 
Becky Little - EBUKI & Rebearth 
Becky is an earth builder and artist with 30 years experience in heritage and new build. Her company Rebearth specialises in education and research using earth and fibre and she is a project officer for EBUKI currently working on training for social impact. 
Tom Morton - Arc Architects 
Tom leads Arc Architects whose work on eco-building, heritage and research has a generative approach to the confluence of the built and natural environments. Tom also works with the charities Earth Building UK & Ireland and Cohousing Scotland. He is currently collaborating with Ghanaian-Filipino agro-waste designer Mae-ling Lokko and Glasgow School of Art on the Future by Design project for COP26 in Glasgow. 
Paul Mallion - Conker Conservation 
Paul is a chartered building surveyor and certified Passivhaus designer, director of Conker Conservation Ltd of Canterbury, set up in 1999 to focus on sustainable design in new build, retrofit and historic buildings. 
Clare Whitney - Clayworks 
Clayworks is the world’s leading manufacturer and supplier of 100% natural clay plasters. Based in Cornwall, the company was originally a cob building company and has focused on researching and developing natural interior wall finishes that are highly contemporary, consistent in high quality and easily accessible to everybody, anywhere in the world. Clare Whitney has worked with the company for 15 years.
Organized by Architects Climate Action Network (ACAN). For more information about ACAN and to join their mailing list please visit: https://www.architectscan.org/home

Exemplo_Baan Doi_Thailand




Exemplo_Baan Doi_Thailand
Students from Linz are currently finalising the administration unit of BASEhabitat permaculture project in northern Thailand.
In October 2022, new Postgraduate students will develop and build a prototype for guest houses on site.
Interested in joining their Postgraduate Program? There are still some last places available! More info on www.basehabitat.org/study/postgrad/
Photos (c) Paul Eis

10 março 2022

Laetitia Fontaine_CRATerre-ENSAG

Laetitia Fontaine
Ingénieure matériaux, Laboratoire CRAterre – AE&CC – ENSA Grenoble 
Directrice du Centre de Recherche et d’expérimentation AMÀCO (atelier matières à construire) Laetitia Fontaine est spécialisée dans les matériaux de construction. Elle poursuit depuis 2004 au laboratoire CRATerre-ENSAG des activités d’enseignement et de recherche, notamment l’étude des relations entre microstructure et propriétés macroscopiques du matériau terre. Elle est co-responsable de l’un des 3 thèmes de recherche, nommé Matière / Matériaux, du programme scientifique du laboratoire CRAterre. Laetitia Fontaine s’est vue attribuer le Prix Pour les femmes et la science de la Fondation L’Oréal – UNESCO – Académie des Sciences, pour son travail en recherche doctorale. 
Elle est co-auteur de l’exposition Ma terre première, pour construire demain présentée à la Cité des sciences et de l’industrie à Paris et du livre Bâtir en terre, du grain de sable à l’architecture.
Terre, matière à construire
Science, technique, art et architecture
La terre est une énigme. Ce matériau si commun mais pourtant si étrange est constitué de grains (cailloux, graviers, sables, silts et argiles), d’eau et d’air qui forment un sol avec une histoire géologique. A partir de ces trois éléments, on obtient un matériau solide qui permet de construire un mur, une structure, un édifice.
C’est ainsi que l’on passe du grain à l’architecture. Tous ces grains tiennent ensemble comme par magie. Pour comprendre pourquoi ils tiennent ensemble, il faut réapprendre ce qu’est un sable ou une poudre, un liquide et un gaz. Porter un regard neuf sur la matière. Et en particulier sur toutes ces choses communes que l’on croyait connaître.
De tous les éco-matériaux, la terre est celui qui possède la charge symbolique la plus forte. Elle invite à la magie, à l’émotion et à la créativité. c’est une ressource universelle qui génère une prodigieuse diversité d’architectures vernaculaires et contemporaines. Ces matières premières inspirent un nouveau rapport au monde, où les habitants construisent à partir de ce qu’ils ont sous les pieds et à portée de main.

04 março 2022

Miguel Peixinho_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 16/09/2021
'Nota Prévia: O novo regulamento térmico publicado em Junho 2021 (Portaria n.º 138-I/2021 que regulamenta os requisitos mínimos de desempenho energético relativos à envolvente dos edifícios e aos sistemas técnicos e a respetiva aplicação em função do tipo de utilização e específicas características técnicas e o Decreto-Lei n.º 101-D/2020 que estabelece os requisitos aplicáveis a edifícios para a melhoria do seu desempenho energético e regula o Sistema de Certificação Energética de Edifícios, transpondo a Diretiva (UE) 2018/844 e parcialmente a Diretiva (UE) 2019/944) inclui uma cláusula de excepção para a construção em taipa (reabilitação ou construção nova) que permite um valor máximo de U=1.3, ou seja, quase duplicou (era 0,5 ou 0,7, conforme o enquadramento).
Gratifico-me com o facto da oportunidade de divulgar a construção em taipa ter contribuído para que se ajustassem os valores acima referidos, tão importantes para a viabilidade deste tipo de construção, como referi em crónicas anteriores. A decisão foi técnica, com um contributo decisivo da Engª. Paulina Faria da Universidade Nova de Lisboa, a quem expressei o bloqueio que a situação anterior estaria a provocar às novas construções em taipa. Também politicamente houve interesse em resolver o problema, o que revela que o tema não é indiferente à nossa região.
Congratulo esta conquista que revela que a união ainda faz a força e a discussão ainda traz a luz!
Miguel Peixinho
Não é preciso um segundo olhar para percebermos que o Miguel é um espírito livre. O próprio cabelo revela que o vento é a sua estrada. Quanto ao seu veículo, pode ser um veleiro, onde é peixinho na água, mas é habitualmente a sua mota de aventura, que o acompanha nas suas travessias do Alentejo.
A sua liberdade aumenta no momento de projectar. Quando visitei a sua casa, a primeira sensação foi de perder o eixo. O ângulo dos rústicos pilares de madeira do telheiro leva-nos a um mergulho no vale, lindo, do principal afluente do Mira. Uma das janelas assumiu a forma de uma racha na taipa que o tempo consolidou e que faz entrar a luz por raios de sol. Ao contrário do que todos faríamos, a salamandra está no exterior, ao lado de uma mesa de desenho, porque é no exterior que o Miguel gosta de projectar, sob as estrelas do céu negro dos Troviscais.
Se a originalidade dos ambientes acima descritos o está a remeter para imagens de uma casa estrambólica, desimagine-se! O Miguel combina todo o seu arrojo com integrações imaculadas na natureza e total respeito pela cultura local. Para esse efeito contribui a criteriosa escolha de materiais, predominantemente naturais e locais, como a telha de baixa cozedura, a pedra aparelhada, a madeira rústica e, sempre que se justifica, a taipa.
Rui Graça - A tua arquitectura é a prova viva de que a Arquitectura Alentejana é perfeitamente adaptável às mais arrojadas e inovadoras formas de vida. Podes explicar a tua ideia de arquitectura alentejana e a forma como se manifesta nas tuas obras?
Miguel Peixinho - A minha ideia de arquitectura alentejana passa por conseguir proporcionar aos meus clientes uma leitura clara e evidente deste território. Poderia dizer que assumo um papel de tradutor, traduzo ideias, programas e muitas vezes imagens de quem me procura para que as obras se integram de forma natural e positiva na fabulosa paisagem e cultura da região. Neste processo de aproximação a este território, apaixonei-me pelas antigas casas da região, sendo muitas vezes o ponto de partida físico dos meus projectos. Sou, como disseste um adepto dos recursos locais (ao invés de soluções globais cada vez mais estandardizadas) dos quais me sirvo e ao mesmo tempo estimulo para resultados arquitectónicos verdadeiramente sustentáveis e singulares.
Existe ainda um factor relevante, característico e próprio do Alentejo, a luz que fascina o mundo da arquitectura, e particularmente nesta latitude, em que a sua abundância nos faz reflectir sobre o seu uso adequado. As tipologias habituais, para além da sua utilização nos espaços interiores fazem-me reflectir bastante nos espaços exteriores: terraços, pérgulas, pátios ou telheiros, espaços estes que normalmente complementam de forma imprescindível os espaços interiores, quer em vivência quer em composição. Fazem a ligação à envolvente paisagística, muitas vezes em estado puro e duro.
RG - O meu professor do último ano da faculdade, o Manuel Aires Mateus, aconselhava-nos a não desperdiçar uma única oportunidade para exercer boa Arquitectura, por mais insignificante que parecesse o projecto. Essas palavras ecoaram quando me deparei com a pequena garagem que fizeste no aglomerado dos Troviscais. Eu diria que aquela pequena construção com cerca de 20m2 estaria condenada a ser um anexo manhoso (como tantos que infelizmente vemos na paisagem) mas não, a tua interpretação dos mourões criou uma silhueta à pequena garagem, toda branca, que dignifica o conjunto de casinhas onde se insere. Quando soube que tinhas sido tu o projectista tirei-te o chapéu, sem te conhecer ainda. Revelaste nesse projecto uma ética e um respeito profundo pelos lugares que transformas! Se fosses professor de projecto, que conselho darias aos teus alunos no caso de projectarem no Alentejo?
MP - Eu lembro-me de ter lido as teorias do famoso arquitecto Christopher Alexander (bem conhecido por ser dos primeiros a criticar a arquitectura modernista pela degradação social que provocava). Ele dizia que para se projectar consistentemente para uma família seria necessário viver com essa família cerca de seis meses.
À semelhança de Christopher Alexander, eu aconselharia esses jovens arquitectos a viverem seis meses, mas no Alentejo, na região onde projectassem. Acho deveras importante sentir as cores, os ventos, os cheiros e as diferentes luzes do dia, nas diferentes alturas do ano. Conhecer as casas antigas, sentir a força e sensibilidade da terra das suas paredes, perceber as cores das pedras, dos barros e o branco próprio da cal. Da mesma maneira que o projecto de uma casa não deve ser estranho para os hábitos de uma determinada família, muito menos deve ser estranho numa região sensível e natural como a nossa.
Acho igualmente importante ler e interiorizar, com humildade, os Regulamentos Municipais. Eu revejo-me bastante no Regulamento Municipal de Odemira que, por mais antigo que seja, mantém presente a necessidade de perpetuar algumas características intrínsecas da arquitectura regional: a proporção dos vãos, a dominância do branco nas fachadas ou a importância de um determinado tipo de telha nas coberturas, por exemplo.
RG - Como sabemos, o Alentejo é muito grande e manifesta diferenças arquitectónicas, às vezes significativas de região para região. Ao contrário de Évora, onde as chaminés são grandes e há diversos ornamentos nas fachadas, nos Troviscais, onde te sediaste, fruto da pobreza e do relevo, muitas casas tinham apenas uma água, chaminés pequenas e raríssimos ornamentos. Pode dizer-se que a influência do essencial contribuiu para a imagem moderna da tua arquitectura?
MP - Claro que assumo a influência das referências que me cercam. Tento que essas imagens estejam espelhadas nas minhas obras, o que só acontece depois de uma evolução profunda e muito criativa desses princípios. As exigências modernas são enormes, quer em termos programáticos quer em termos legais. Dito isto pode parecer capricho a insistência no arquétipo da arquitectura local, mas penso que não é: Tenho obtido excelentes resultados, mesmo em exigentes unidades de Turismo Rural, como o Monte da Vilarinha em Aljezur, por exemplo. Os materiais locais e naturais, para além de serem muito apreciados e "venderem" bem os espaços, têm envelhecimentos muito nobres, factor que valorizo bastante... (quantas Câmaras Municipais, Escolas ou Teatros não conhecemos com centenas de anos a exercerem cada vez mais fascínio a quem os usa).
Por vezes tenho clientes que me procuram mas trazem imagens de arquitecturas que eu entendo que não se coadunam na região. Lembro-me de uma senhora insistir em ter uma janela de 5 metros pela altura da casa. Eu disse-lhe que poderia ter essa janela mas seria necessário combiná-la com uma área de parede de dimensão equilibrada. A esmagadora maioria dos clientes, no processo de projecto, acaba por perceber a relevância do arquétipo da arquitectura regional, mais facilmente ainda numa base simples como as casas dos Troviscais que referes, eventualmente mais moldável e de imagem mais depurada, como tantas vezes se deseja. Por outro lado, a experiência tem mostrado que a "arquitectura moderna cliché", de aspecto mais ou menos minimalista, cobertura plana e muto vidro, das duas uma: ou é exorbitantemente cara (o que revela a sua insustentabilidade) ou é perigosamente propícia a problemas sérios na sua manutenção.
Como disseste e bem, nem sempre recorro à taipa, mas sinto a obrigação de recorrer à arquitectura alentejana e aos recursos locais. Mesmo assim, tenho a dizer que, a experiência de projectar em taipa contribuiu muitíssimo para apurar a lógica das volumetrias e proporções próprias da arquitectura local. É realmente um exercício altamente pedagógico que, mais do que uma aproximação à técnica revela-se uma aproximação ao espírito intemporal de uma região!
Conclusão:
Numa de muitas conversas com um arquitecto amigo meu, que me visita regularmente ao Alentejo, lamentava ele a pobre integração de uma grande construção dessa "arquitectura moderna cliché", acrescentando que a linguagem "vanguardista" em causa estaria fora de moda.
Ao mesmo tempo que me veio a evidência de que qualquer obra arquitectónica que passe de moda ou perca a relevância no seu tempo de vida útil é um fracasso, tive de reflectir sobre a existência dessa moda e como se manifesta na nossa sociedade.
Lembrei-me dos anúncios de automóveis, principalmente dos que mais apelam a um carácter tecnológico, como os BMW, por exemplo. As casas que acompanham esses carros, para reforçarem a modernidade dos seus proprietários são sempre edifícios de excepção mas que nos últimos anos têm mudado substancialmente, acompanhando a moda. Há uns anos eram casas brancas, sempre com cobertura plana e muito vidro, depois começámos a ver apontamentos mais orgânicos como madeira ou pedra natural. Actualmente, já não me espantaria ver cortiça aparente nessas casas, já que os próprios carros mais vanguardistas apregoam com maior veemência materiais sustentáveis na sua construção, muitas vezes a própria cortiça. Eu diria mesmo que não estamos livres de ver um dia destes uma casa do Miguel Peixinho num anúncio a um "BMW" X12.
É natural que as casas reflictam a personalidade dos seus donos mas, como reforçou o Miguel, sem que descaracterizem os locais onde se inserem. Quem não conhece inúmeras vivendas dos anos oitenta e noventa, à saída das localidades, com complexos jogos de telhados, entradas com azulejos folclóricos e jogos de escadas manhosos? As casas dos denominados patos bravos ou novos-ricos, a quem a vida trouxe fortuna mas não muito gosto ou cultura. Casas mal pensadas que cumpriam essencialmente função de ostentação económica. Casas tão feias e descaracterizadoras que o tempo, infelizmente, nunca as vai branquear.
O pato bravo ou o novo-rico do novo milénio, para não se enganar, em vez dos inúmeros telhados, jogos de escadas ou entradas com azulejos, opta pela arquitectura "minimalista" e "vanguardista". Na verdade o pato bravo é uma espécie em vias de extinção e o novo-rico, muito mais do que dinheiro, hoje em dia, quer ostentar cultura, modernismo ou mundo, como agora se diz. O problema é que grande parte destas casas "minimalistas" ou "vanguardistas", tal como as casas do pato bravo original, são mais caras e igualmente descaracterizadoras dos lugares que as recebem. Já o tempo, não as vai branquear, vai desmascará-las!
Se há, obviamente, fabulosos exercícios de design e construção diferenciada, os mesmos, como é próprio da arquitectura, não se integram em qualquer local nem de qualquer maneira. Há que haver critérios sensíveis para o uso de composições arquitectónicas distintas das que caracterizam as regiões, por isso mesmo, caro leitor, se está planear construir a sua casa moderna, veja bem se a mesma não fica fora de moda no momento em que estiver pronta.'

12 fevereiro 2022

Maria da Luz Seixas_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 11/03/2021

Maria da Luz Seixas
A Arquitecta Maria da Luz Seixas, ao contrário da esmagadora maioria dos arquitectos com trabalho dedicado à taipa que se estabeleceram no concelho de Odemira, está sediada em Serpa.
Conheci a Maria Seixas quando nos cruzámos, por um curto período de tempo na direcção do Centro da Terra, associação que promove e divulga a arquitectura em terra no nosso país. Na mesma altura conheci o trabalho da empresa de construção "Betão e Taipa" do marido, Francisco Seixas, à qual, para quem se interessa por construção em terra, é impossível ficar indiferente, tal o arrojo e inovação que utilizam nas suas obras em terra.
A nossa conversa decorreu precisamente na sede da "Betão e Taipa", de vanguardista arquitectura em terra. É aí que a Maria da Luz Seixas também tem o seu gabinete e desenvolve os seus projectos de arquitectura.
RG - Serpa é uma cidade onde se respira património arquitectónico tradicional e histórico, que justamente tem sido bem valorizado. De que forma esse património arquitectónico influenciou a sua vida profissional?
MS - A vivência com a arquitectura tradicional alentejana, precisamente aqui em Serpa, de onde sou natural, acabou por marcar definitivamente o meu percurso como arquitecta.
Sinto um apelo muito grande pela construção tradicional alentejana, que inevitavelmente me traz sensações muito boas de criança. Quando tomei conhecimento que havia Arquitectos que estariam a "reinventar" a construção em taipa, procurei uma aproximação a essa iniciativa. Queria perceber como se estava a processar a nova aproximação às técnicas ancestrais de construção.
Acabei por criar uma excelente relação com os pioneiros da "nova" taipa, os arquitectos Alexandre Bastos e a Teresa Beirão, que eram na altura um casal. Senti-me privilegiada pela abertura destes meus colegas, que se transformou em amizade e que viria abrir caminho para o meu percurso na arquitectura tradicional alentejana.
RG - Eu diria que, se a Maria recebeu um apoio no início dos seus projectos em taipa, o retribuiu em dobro quando assumiu dar formação na Escola profissional de Serpa, precisamente quando essa instituição se dedicou ao ensino de técnicas tradicionais de construção, entre as quais a taipa.
MS - Efectivamente tive essa oportunidade, mas foi igualmente para mim um privilégio! Se a formação em construção civil é uma necessidade cada vez mais evidente (acho que todos já percebemos a falta de mão de obra qualificada na construção civil) eu testemunhei que essa formação em técnicas tradicionais é mais apelativa, pelo seu carácter artesanal. Os meus alunos gostavam de aprender a fazer paredes em taipa ou abóbodas, por exemplo. O carácter artesanal, quase artístico dessas técnicas, atraía jovens para esses cursos e mantinha-os estimulados. Ao contrário disso, na construção civil corrente, a percepção que eu tenho é que os jovens acabam por aderir a ela principalmente por recurso... Este aspecto devia ser valorizado porque nele reside um grande argumento da sustentabilidade da construção em taipa.
RG - Outro privilégio deve ser trabalhar de perto com uma empresa como a "Betão e Taipa", uma incontornável referência na construção com terra, deve deixar-lha as costas bem quentes...
MS - Sem dúvida! A empresa do meu marido tem aprofundado significativamente o estudo e as várias técnicas possíveis de construção em taipa. Reúne neste momento uma capacidade técnica considerável com obras marcantes, em taipa, como a piscina municipal de Toro, no Norte de Espanha, com 420 m3 de taipa, boa parte construída com temperaturas negativas!
Das obras da "Betão e Taipa" destaco ainda a habitação em Beja do conhecido arquitecto português, o Bartolomeu da Costa Cabral, a quem é atribuído um lugar de referência na viragem do movimento moderno da arquitectura portuguesa. Foi surpreendente o interesse do Bartolomeu pela taipa e, mesmo que a tenha utilizado duma forma muito própria, houve uma aproximação deste arquitecto às origens, tanto assim que eu, e a Teresa Beirão, que referi atrás, constituímos uma equipa de consultores para que o projecto e a obra seguissem da melhor forma.
Relativamente aos meus projectos em taipa, que se enquadram normalmente na arquitectura regional, não deixa de ser uma oportunidade, ter acesso a novas formas de compactação da terra. Eu considero que as tradições evoluem, por isso, a soma de novos recursos técnicos vem dar ainda mais opções a uma linguagem que só por si já é ilimitada do ponto de vista criativo.
Nos últimos anos a empresa do meu marido tem tido um volume cada vez maior de solicitações para a concretização de projectos em terra de gabinetes de arquitectos mais conhecidos e de maior dimensão. As soluções regionais começam a exercer um apelo cada vez maior também à elite projectista. Há por isso que valorizar as soluções técnicas mas também a sua contextualização cultural e regional para que essas construções venham a contribuir sempre para uma valorização arquitectónica e paisagística das regiões onde se inserem.
RG - Vejo pelos painéis que tem no seu atelier que já teve alguns dos seus projectos expostos em exposições dos quais destaco o Turismo Rural "O Cantar do Grilo". Chama-me a atenção a monitorização que este edifício teve ao nível da amplitude térmica e humidade relativa. Se a arquitectura tradicional pode despertar paixões, a construção em taipa permite atingir valores concretos que se traduzem em conforto e poupança energética. Pode explicar as medições e os resultados que elaboraram no "Cantar do Grilo".

MS - Muito sinteticamente, nas medições que fizemos, entre 1 e 15 de Julho de 2006 verificou-se que, com temperatura exteriores de 43oc, a temperatura no interior manteve-se estável e sempre abaixo dos 30º. É muito clara a vantagem da inércia térmica num clima como o do Alentejo que apresenta amplitudes térmicas diárias significativas.
Em relação à humidade relativa no mesmo período, no exterior varia entre 18% e os 84%. No interior as humidades mantêm-se dentro das gamas de conforto, entre os 40% e 60%.
Há a referir que os valores de humidade ou temperatura na tabela foram absolutamente passivos, não dispondo a construção em causa de qualquer aparelho eléctrico ou outro que contribuísse para os mesmos, o que é impressionante.
É importante salientar no entanto que a eficiência energética de qualquer edifício, depende da conjugação de vários fatores, entre eles: o Projeto de Arquitetura; o clima local, os materiais utilizados na construção; e também as boas práticas de utilização.
RG - Tive a oportunidade de falar com a jovem arquitecta que trabalha aqui consigo, a Alexandra Melão. Notei que dá um valor adicional aos projectos que desenvolve em taipa, como se associasse um sentido de missão à exaltação da arquitectura regional...
MS - Sem dúvida que a Alexandra é uma entusiasta da arquitectura tradicional e uma excelente profissional. Entendemo-nos muito bem na abordagem ao nosso património arquitectónico que passa pela preservação, restauro, mas também por encontrar a forma de o ampliar, resgatando e adaptando as inúmeras técnicas ancestrais, tornando-as válidas nos nossos dias.
Eu penso que a juventude tem mais presente a necessidade de sustentabilidade das construções. Talvez por isso, tanto na escola profissional como no meu atelier, a taipa atrai e estimula mais os mais jovens. A construção dos nossos avós é provavelmente mais cativante para os nossos filhos do que para os nossos pais...
Não há dúvida que as virtudes da arquitectura da Maria nos entram pelos olhos dentro, carregando a autenticidade e a pureza da arquitectura alentejana de Serpa, no entanto foi a sua experiência na formação que retive como um sinal de grande optimismo...
Se as novas construções em taipa representam quase sempre um acréscimo ao nosso património arquitectónico tradicional, a formação de novos empreiteiros, arquitectos e engenheiros pode representar um fenómeno cultural de valor inestimável.
A experiência da Maria da Luz é ainda um bom exemplo para clarificar que, de forma generalizada, o uso de técnicas tradicionais não se esgota nelas próprias. Muitas vezes esse conhecimento tem a validade de criar referências de composição e de técnicas que inspiram e dão consistência a outros projectos, mesmo de natureza distinta das obras tradicionais.
Eu pessoalmente, no último ano do meu curso de arquitectura, tive o privilégio de integrar a equipa que se responsabilizou pela fiscalização do Pavilhão de Portugal, na Expo na altura. Se a imagem deste projecto do famoso Siza Vieira é de uma laje em betão suspensa, como se de um lençol se tratasse, o que eu retive dessa obra foi a obsessão do Siza Vieira pelos pormenores da arquitectura tradicional lisboeta: os azulejos, a calçada à portuguesa, as cantarias em lioz ou o fabuloso trabalho de carpintaria. Também na arquitectura, o essencial é invisível aos olhos...
Se a construção dos nossos avós é mais atraente para os nossos filhos do que para os nossos pais, devíamos valorizar este sinal e dar-lhe o futuro que merece!'

09 fevereiro 2022

Alexandre Bastos_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 01/10/2020

'Alexandre Bastos
Em 1993 é concluída a obra de um Ateliê de Pintura de construção em taipa (projecto de 1992) e é apresentada, no mesmo ano, na 7ª Conferência Internacional sobre o estudo e conservação da Arquitectura de terra, que se realizou em Portugal, na cidade de Silves. Esta construção acaba por ser uma referência do ressuscitamento desta técnica de construção, a taipa, tão própria do nosso Alentejo. O seu autor é o arquitecto Alexandre Bastos.
Do seu incrível currículo de trabalhos em taipa onde eu ainda tive o privilégio de colaborar no 1º prémio do concurso de recuperação, conservação e restauro do Castelo de Paderne e Capela do séc. XV, do IPPAR, no Concelho de Albufeira. Contam-se diversos contributos entre projectos, publicações e conferências. O Alexandre concentra muita informação relevante no seu blog, "poética da terra" que merece uma visita cuidada para quem se interessar por este tema.
No período onde eu pertenci ao licenciamento de obras particulares da Câmara Municipal de Odemira, os projectos do Alexandre Bastos eram sempre motivo de interesse do nosso grupo de arquitectos. Para quem não sabe, o Alexandre, para além de arquitecto é um brilhante pintor. Os alçados dos projectos do Alexandre Bastos eram tratados como telas. Em muitos dos alçados das obras do Alexandre Bastos sente-se uma liberdade de composição muito própria da pintura, influenciando a Arquitectura.
Rui Graça - Penso que ainda há uma ideia, talvez um preconceito, lamentável quando é assumido por arquitectos, de que a prática da arquitectura tradicional alentejana consiste num acto não criativo e desactualizado. Eu digo que se há alguma coisa que caracteriza a sua obra é precisamente a liberdade artística e a criatividade. O que o liberta na prática da arquitectura tradicional?
Alexandre Bastos -"Reconstruí muito: É colaborar com o tempo sob o seu aspecto de passado, apreender-lhe ou modificar-lhe o espírito, servir-lhe de muda para um mais longo futuro; é reencontrar sob as pedras o segredo das origens."
Adriano. Marguerite Yourcenar
Nada de especial, a criatividade e não ser mimético. Talvez esteja a ser parco na resposta, assim vejamos em mais pormenor:
Sem entrar a fundo na Arquitectura popular, ela ensina muito e duma forma surpreendente, cada zona, cada território, tem a sua especificidade e a sua necessidade e adaptação; Seja nas chaminés, telhado, inclinação, beirado, pedra, taipa, adobe, fenestrações, comprimento, largura, gigantes, platibandas, grelhas, paisagem, interiores do lar e do lar(lareira); Alcovas, cozinha de fora, cozinha dos convidados, sala por estriar que raramente se usa, ou pequena sala junto ao fogo onde se cozinha com a panela de ferro? Têm corredores ou passa-se duma divisão para a outra? A última telha do beirado é mais comprida ou é curta? Então porque estas são mais alongadas ao norte do Alentejo? E como se resolve, caso haja necessidade da dita telha diferente seja aplicada onde não se fabrica in situ? Simples: Executa-se um beirado duplo e cada um tem a sua beleza e lógica. Assim lança-se a água para o mais longe possível da fachada e da entrada. Quanto mais alta fôr a fachada mais necessidade se exige da distância da queda de água sobre o alçado. E como 'acelerar' ou projectar a água ainda para mais longe? Com a "sela" do terminus das 3 últimas telhas, sendo que a última é praticamente horizontal. Só tem paralelo no Japão. É preciso ter cuidado com o ar, ou melhor, com o vento e o percurso da água.
Mas vivemos de Sol a Sol? Não, a sociedade instalada ou aquela que está prestes a ocupar o território vive de uma outra forma. Se o horizonte é horizontal porque hei-de ter apenas janelas verticais? Não poderei apanhar a água que corre de uma outra forma? E as superfícies não poderão ser no mesmo material e expostas de um outro modo? Os rebocos têm que ser previsíveis e simétricos? A identidade é preservada mas com outro espirito, adaptação e contemporaniadade desde que preservemos a memória e os ensinamentos dos arquitectos anónimos.(a arquitectura popular). Como é que isto se chama? Equilíbrio e sensatez.
RG - A incrível opção de voltar a construir em taipa no princípio dos anos 90, quando eu estava a iniciar o meu curso de arquitectura, é seguramente muito diferente da mesma opção nos nossos dias. Hoje em dia a construção contemporânea em taipa já tem um percurso marcado. O que o motivou para explorar nessa altura essa técnica tradicional em desuso?
AB - "Construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre."
Adriano. M.Yourcenar (Memórias de Adriano)
Essa opção era previsível e óbvia para mim. Então se temos o material aos nossos pés e a construção assim era, porque não retomá-la? Não é ela a nossa cultura e identidade? E repare que o que é interessante é a sua descontinuidade que por agora não cabe aqui explorar, mas fazer notar que a idade dos grandes taipeiros era já avançada e se não aprendessemos com eles, seria com quem? Mesmo no conhecimento das análises à terra havia um défice, os limites de consistência, a granulometria , compressão, tracção, análise "dos finos", etc, e desde esta constatação iniciei esse processo em 1992/93.
Por outro lado é óbvio que não esqueço o meu passado privilegiado, neto e filho de arquitectos com quem aprendi quase tudo, sobretudo com o meu Pai, onde as leituras eram essenciais , Orlando Ribeiro, José Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, 'Arquitectura Popular' do Sindicato dos arquitectos, etc.
RG - No seu trabalho, um arquitecto acaba inevitavelmente por interagir com a personalidade dos seus clientes. Com mais de 50 obras em taipa, de maior ou menor dimensão, já é possível identificar o perfil do cliente que procura a construção em taipa? Esse perfil mudou durante os 25 anos que projecta em taipa?
AB - O perfil é sempre a ecologia e o conforto interior. Também o custo do material que é zero. Por vezes cultural, mas raro. Curiosamente o perfil não mudou.
RG - Vivemos num concelho, Odemira, onde apenas há 3 monumentos classificados, uma ponte em Santa Clara, uma igreja em Odemira e um castelo em Vila Nova de Milfontes (este último cheio de construções clandestinas na cobertura?). Num território onde a dispersão do património é grande e sem a existência de muitas construções de excepção, as políticas de valorização e preservação desse mesmo património são difíceis de aplicar, apesar dos seus arquétipos serem tão presentes e importantes para a nossa identidade - o monte alentejano, as ruas de aldeia com casas térreas caiadas? Qual a importância e que influência teve o património original do concelho de Odemira na sua obra?
AB - A sua pergunta dá a resposta - A simplicidade desse património, "as ruas da aldeia, as casas térreas, o monte alentejano" e o mais importante de todos o 'assento' agrícola de outra dimensão, em decadência pelo revés da agricultura e a contemporaniadade , o decurso normal da passagem do tempo. Donde, e falo por mim, a arquitectura deverá ser simples, escorreita não significando que não seja contemporânea ou denotante aqui e ali, preservando sempre um diálogo com a pré-existência do sítio, da aldeia, do monte, enfim da urbe e da identidade. Numa simplicidade tão grande é evidente que o mais grave está na destruição/demolição dos valores simples da arquitectura. Por vezes o acréscimo destrói, e por mais paradoxo que pareça, acrescenta aquilo que não deve ter, uma espécie de abcesso que necessita com urgência de um estomatologista.
RG - ?E num sentido contrário, que influência acha que pode ter o desaparecimento de parte substancial do património original num concelho como Odemira no trabalho dos arquitectos que agora iniciam o seu trabalho?
AB - Talvez, talvez menor quantidade e qualidade para influenciar e determinar o fio condutor das suas obras.
RG - No seu percurso de construção em taipa a expressão apaixonante quase se pode aplicar literalmente, essa paixão e ideal contribuiu certamente para a ligação com a sua ex-mulher, a arquitecta Teresa Beirão, também com um brilhante currículo de construção em taipa. O que tem de tão apaixonante a construção em Terra?
AB - Eu conheci a Teresa em 1976 e desde 1977 que convivíamos amiúde. Tínhamos o mesmo ponto de vista, a mesma abordagem em termos profissionais do património arquitectónico e a mesma filosofia de abordagem da proposta a um novo desafio. Dessa forma houve um encontro.
O que a apaixonante Taipa, (construção em terra) tem, é ser infinita sob o ponto de vista criativo. Textura irregular, lisa, polida, com pigmentos, várias cores, baixo relevo, mais cal, menos, com gravilha de cor, sem, com estereotomia da cal visível, metade dela, sem, com riscas brancas no taipal, com intersecção das diagonais, com muitas diagonais, sem elas, rebocada de cal, rebocada com escariola e pintada, frescos e cal, etc, está a ver, é uma infinidade. O que há de melhor para um artista plástico-arquitecto? Isso mesmo.
Mas muito mais; poupa 2/3 de água, respira e transpira, adapta-se a qualquer forma, é altamente isolante, acusticamente soberba, dum aroma constante, e fantástica sob o ponto de vista sísmico. Tem outra grande qualidade, a alteração e o reaproveitamento em outro local e deste modo está preparada para as gerações vindouras ou para voltar à terra. Em sintese, é livre na sua essência, móvel mesmo sendo antiga, enfim uma matéria sem tempo.
RG - No seu profundo sentido artístico, seguramente que sente cada vez mais restrições na criação arquitectónica. Desde a primeira construção em taipa até aos nossos dias que obstáculos destaca com as mudanças de legislação e politicas.
AB - Não sinto sabe, sou imune à restrição criativa. O que sinto é uma caterva de legislação inútil e disparatada que é entediante para quem projecta, o que é grave é a circunstância do tempo, um tempo limite a partir do qual eu-mesmo me sinto ultrapassado, esperar pela aprovação, esperar pelo parecer das entidades, esperar pelas especialidades, esperar pelos orçamentos, esperar pelo cliente, esperar sem desesperar é o mais difícil. Julgo que foi em 1994, escrevi um artigo onde abordava e também aconselhava, a fazer uma síntese da legislação, mas ninguém ligou nenhuma. Estava-se mesmo a ver o que iria acontecer; um labirinto para todos. Senão veja, chegou agora (desde há alguns anos) mas no momento complica-se ( não tenho paciência para explicar porquê) um dec-lei sobre a defesa nacional da floresta que restringe as construções e (ai) das Câmaras que não tenham o plano. Mas diga-me s.f.f., existe alguma Lei, aconselhamento, seja o que fôr, sobre o modo como a floresta deve ser implementada? Que espécies prioritárias? Que rejuvenescimento se implementa? Sei perfeitamente o que esta atitude significa: 'Sacudir a água do capote' para desresponsabilizar os políticos! Esqueceram Orlando Ribeiro, Caldeira Cabral, Ribeiro Teles, etc. 
A estrutura fundiária mudou, a sociedade também, a migração foi e é complexa, a economia e finanças das famílias agudizam-se e tentam encontrar a todo o custo o caminho eficaz do labirinto - a saída. Na verdade os políticos estão a preparar um barril de pólvora, o momento em que a frágil dinâmica rural desiste e começa a preparar a sua fuga para os limítrofes da cidade, abandonando o campo de vez. Todas as coisas na vida devem ser simples, é através dessa simplicidade que num ápice resolvemos a tormenta. 
Entretanto aguardo serenamente pelo momento em que um legislador-brilhante me proíba fazer chi-chi no campo.
O Alexandre vive em São Luís, no Concelho de Odemira, muito provavelmente a aldeia com mais arquitectos a exercerem arquitectura em taipa. É indiscutivelmente um pioneiro e motivo de inspiração para novos arquitectos. Como alentejanos acho que devemos estar gratos pelo Alexandre ter escolhido a nossa arquitectura tradicional como suporte para a sua arte...'

08 fevereiro 2022

Teresa Beirão_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 12/11/2020

'Teresa Beirão
A Teresa Beirão foi sem dúvida uma das pioneiras do ressurgimento da taipa como método construtivo, que se começou a definir no Alentejo com clareza a partir do final dos anos noventa. Nessa altura a Teresa partilhava um pequeno gabinete de projectos (uma casa de habitação adaptada na zona histórica de Odemira) com o seu marido, o arquitecto Alexandre Bastos e o arquitecto Henrique Shreck, que ocupava o sótão e trabalhava autonomamente, apesar de se dedicar igualmente à construção em taipa.
Muito para além do seu contributo como projectista, a Teresa teve um papel determinante como elemento agregador do movimento contemporâneo de construção em terra. Quando possível os próprios projectos eram o pretexto para conhecer melhor e difundir as técnicas da taipa. Foi o que aconteceu por exemplo com o mercado de São Luís, projecto da Teresa Beirão e Alexandre Bastos, provavelmente o primeiro edifício público contemporâneo em taipa. A construção do mercado ocorreu em condições de escola oficina onde se formaram alguns taipeiros na altura.
A arquitecta Teresa Beirão abria com facilidade as portas do seu gabinete, passando os seus conhecimentos e permitindo colaborações nos seus projectos por arquitectos que se interessassem pela temática (eu mesmo cheguei a elaborar um projecto em taipa com a Teresa para o concelho de Santiago do Cacém, um equipamento que infelizmente não chegou a ser construído). Ao mesmo tempo a Teresa tentava abrir portas de institutos e técnicos relevantes que pudessem contribuir para o estudo da taipa, buscando sempre a sua melhor compreensão e adaptação às novas necessidades e legislação em vigor.
A mais relevante Associação de promoção e estudo da construção em terra em Portugal, o Centro da Terra, recebeu um forte contributo da Teresa Beirão que chegou a ser presidente por um período significativo e ainda viu o seu nome ser atribuído ao Centro de Documentação da associação, na biblioteca municipal de Santiago do Cacém, como merecida homenagem.
No momento da homenagem à Teresa Beirão, a presidente do Centro da Terra era Catarina Pereira, arquitecta, naturalmente entusiasta da construção em taipa.
Rui Graça - Ainda trabalhaste de perto com a Teresa Beirão na direcção do Centro da Terra. Para além da evidente paixão da Teresa pela construção em taipa, como descreverias o seu trabalho de arquitecta?
Catarina Pereira - A Teresa conseguiu gerir com maestria a união entre uma técnica que é tradicional com a linguagem própria que conferia às suas obras. Ela tinha a ousadia, talvez para quebrar um tabu, de expor o valor estético que uma parede construída em terra pode oferecer, deixando grandes áreas dos seus edifícios sem reboco.
Falava com honestidade das suas experiências realçando as vantagens das casas em taipa. Lembro-me bem do exemplo que sempre dava, como fumadora, da capacidade de purificar o ar das casas em terra, estando ela particularmente satisfeita com a sua habitação por não reter o cheiro a tabaco. A Teresa evidenciava também as fragilidades do material, trazendo para discussão as formas como estas deviam ser superadas.
RG - Quais as principais conquistas do Centro da Terra? e quais os desafios que, na tua opinião, se colocam à construção em taipa no nosso país?
CP - A principal conquista do Centro da Terra foi a congregação de um número significativo de profissionais, estudantes, autarquias e simples interessados numa plataforma onde podem partilhar e divulgar informação relativa ao tema. Para essa dinâmica apoiaram-se encontros, publicações, oficinas e estudos, que têm contribuído para o conhecimento e divulgação do património imaterial que é a construção em terra.
RG - E quais os desafios que, na tua opinião, se colocam à construção em taipa no nosso país?
CP - Um desafio importantíssimo prende-se com a necessidade de contornar a legislação vigente que é muito específica e direccionada para obras de estrutura em pilares e vigas de betão, legislação essa que não reconhece ou abrange a arquitectura solar passiva e timidamente valoriza a qualidade do ar no interior dos edifícios. Em suma, a legislação vigente tem muita dificuldade em compreender os comportamentos de um material que não seja normalizado.
O outro desafio que considero essencial é dar a conhecer ao público em geral a vantagem da sustentabilidade das construções em terra. Essa percepção só vai ser clara se, para além da vida útil dos edifícios (onde as construções em taipa também já demonstraram a sua longevidade e performance) se considerar a fase da construção (com imbatíveis vantagens de poupança energética e recursos na produção e transporte de material) e a fase da "morte" ou colapso, onde as paredes em terra não representam qualquer lixo ou resíduo, podendo inclusivamente ser essa terra utilizada de pronto para outra construção ou para cultivo.
RG - Uma das constantes preocupações do Centro da Terra (e o teu interesse pessoal) sempre foi o conhecimento das diferentes construções em terra que se vão concretizando em diferentes países. Na tua perspectiva há alguma característica relevante da construção em terra em Portugal que a distinga das construções em terra doutras partes do mundo?
CP - A diferença mais evidente diz respeito à imagem arquitectónica. Nos países com culturas e legislação mais próximas das nossas, centro da Europa ou Estados Unidos as construções em terra assumem uma linguagem arquitectónica mais abstracta, evidencia-se o material e a tecnologia sobre a cultura. Em Portugal, talvez porque no Alentejo, onde se centra o movimento de construção contemporânea em taipa, haja ainda uma referência de construção regional marcante e apelativa, a esmagadora maioria dos arquitectos dedicados à taipa abstiveram-se de entrar em ruptura com essa linguagem regional optando em vez disso por adaptá-la às novas necessidades.
Finalmente, a natureza e o perfil dos clientes de casas em taipa, curiosamente com uma percentagem muito significativa de estrangeiros, têm vindo a reforçar o arquétipo do monte alentejano, quer para uso habitacional quer para turismo rural. Verifica-se por isso a predominância da horizontalidade e a cobertura em telha assume quase invariavelmente a sua presença na composição.
No papel de aproximação e promoção da construção em terra, quem convivia com a Teresa identificava uma força, um impulso que lhe dava uma motivação extra na sua missão. Eu acredito que essa inspiração provinha da influência do seu pai, o arqueólogo Caetano Melo Beirão, que a levou como jovem estudante de arquitectura ao Alentejo, a acompanhar algumas escavações que revelavam o uso activo da taipa. A aproximação às formas e aos materiais tradicionais das construções do Sul eram, para a Teresa, também, uma aproximação ao próprio pai e aos seus valores…
Efectivamente as construções em taipa, mais do que sensações, parecem transmitir-nos sentimentos. Há quem se pergunte, podem as casas ter alma? Alma acredito que não tenham, mas têm, para muitas pessoas, um carácter afectivo, por experiencias marcantes que grande parte de nós já teve em casas antigas (vividas com familiares, no cinema ou em viagens em zonas históricas). As novas casas em taipa recuperam o carácter simbólico e a expressão das casas antigas típicas do Alentejo, que nos marcam pelas grossas paredes de ricas texturas. Aproximam-nos claramente das nossas raízes e como tal reforçam a nossa identidade.
A identidade arquitectónica de cada região é um valor consagrado por lei (cada autarquia tem a obrigação de indicar em regulamento municipal as condições específicas da construção civil no seu concelho). Apesar disso, penso que todos constatamos que, fora as zonas históricas devidamente limitadas, onde basicamente é obrigatório reconstruir igual ao original, a capacidade de preservar a identidade das regiões quando se constrói de novo, é um exercício que se revela de extrema dificuldade… Neste tema, as palavras Norte e Algarve já carregam em si a imagem da descaracterização arquitectónica e paisagística. Se a palavra Alentejo não o faz deve-se principalmente à menor quantidade de novas construções e urbanizações e não à melhor integração dessas construções, em regra.
É um facto que, desde o momento que se "ressuscitou" a construção em taipa em Portugal, que a legislação aplicável à construção civil em geral tem registado um aumento muito significativo do grau de exigência nas novas construções. No conforto térmico, na acessibilidade ou no ruído (ainda que em certos montes alentejanos nos perguntemos se os projectos acústicos servem para nós não ouvirmos os passarinhos ou para eles não nos ouvirem a nós).
Se não há dúvida que o grau de exigência nas novas construções aumentou, constata-se que ele incide essencialmente nos aspectos quantitativos e muito pouco nos aspectos qualitativos. Ou seja, se há um rigor cego na aplicação dos cálculos térmicos ou acústicos nas novas obras, não se presencia a mesma atenção relativamente aos cuidados de integração das novas construções nas regiões onde se inserem, nem a contabilização dos impactos das mesmas no meio ambiente (salvo na salvaguarda da eficiência energética das construções).
Se as obras em taipa representam uma percentagem residual no panorama das novas edificações, mesmo no Alentejo, o regresso à nossa construção tradicional e a sua adaptação às exigências atuais, ressuscita e revela a nossa cultura construtiva. Já os princípios ecológicos associados à construção em terra podem mesmo vir a ser revolucionários pela sua pertinência e actualidade.
Relativamente à Teresa Beirão, se a componente afectiva das suas origens pode ter sido um grande motor na sua determinação para o estudo e prática da arquitectura tradicional, era o seu saudável sentido revolucionário e rebelde que sempre sobressaía. A última vez que estivemos juntos a Teresa foi ter comigo ao meu monte, motivando-me precisamente para fazer estas crónicas. Já estava visivelmente debilitada pela doença que a levou e lembro-me bem de me ter dito que o médico a proibira de conduzir.'

12 outubro 2021

SAT21_Seminário Arquitetura em Terra_"Terra material regenerativo”_6 e 7_Novembro_2021.



A associação Centro da Terra (CdT) está a organizar o evento SAT21 - Seminário Arquitetura em Terra – "Terra material regenerativo”.
O seminário terá lugar na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca, Santiago do Cacém nos dias 6 e 7 de Novembro de 2021.

A utilização de elementos construtivos em terra pode resultar na redução dos potenciais impactes ambientais em cerca de 50%, quando comparados com o uso de materiais convencionais.
Este Seminário, será assim um momento de partilha, sensibilização e disseminação de conhecimentos e o debate interdisciplinar sobre os temas e desafios que envolvem este tipo de construção.
O evento é destinado a todos os profissionais da área da construção e ao público em geral.
No primeiro dia, 6 de Novembro, será o desenvolvimento do Seminário, terminando o dia com uma Mesa Redonda.
No Segundo dia, 7 de Novembro, decorrerá uma visita com foco na Arquitectura em Terra, da região de Santiago do Cacém, durante todo o dia.
Haverá ainda uma Exposição dedicada ao tema do Seminário, a decorrer paralelamente ao mesmo.
A Mesa Redonda e Exposição irão abordar, entre outras, a questão da gestão da terra na indústria da construção e como valorizar esta matéria prima para facilitar a sua implementação na indústria da construção e garantir a qualidade dos edifícios.

Para inscrição preencha o formulário https://forms.gle/9CXuvQrJTndMgQb78

Para mais informações acedam à Pagina web SAT21, pelo FaceBook evento SAT21 ou entrando em contacto para info.centrodaterra@gmail.com

A CdT agradece desde já o apoio de todos na divulgação deste importante evento. 
Partilhem e participem!