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08 março 2022

Foto OAPix_Calque da terra no taipal

CÓD. REF. PT-OA-IARP-FAR-SLV00-007
TÍTULO - Calque da terra no taipal
TIPOLOGIA - Construção
CONCELHO - Silves
LOCALIDADE - Monte das Pitas
DATA DA IMAGEM - 1955
CRÉDITOS DA IMAGEM - Ordem dos Arquitectos
DIMENSÃO - 6x6cm
SUPORTE - Negativo - preto e branco

04 março 2022

Miguel Peixinho_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 16/09/2021
'Nota Prévia: O novo regulamento térmico publicado em Junho 2021 (Portaria n.º 138-I/2021 que regulamenta os requisitos mínimos de desempenho energético relativos à envolvente dos edifícios e aos sistemas técnicos e a respetiva aplicação em função do tipo de utilização e específicas características técnicas e o Decreto-Lei n.º 101-D/2020 que estabelece os requisitos aplicáveis a edifícios para a melhoria do seu desempenho energético e regula o Sistema de Certificação Energética de Edifícios, transpondo a Diretiva (UE) 2018/844 e parcialmente a Diretiva (UE) 2019/944) inclui uma cláusula de excepção para a construção em taipa (reabilitação ou construção nova) que permite um valor máximo de U=1.3, ou seja, quase duplicou (era 0,5 ou 0,7, conforme o enquadramento).
Gratifico-me com o facto da oportunidade de divulgar a construção em taipa ter contribuído para que se ajustassem os valores acima referidos, tão importantes para a viabilidade deste tipo de construção, como referi em crónicas anteriores. A decisão foi técnica, com um contributo decisivo da Engª. Paulina Faria da Universidade Nova de Lisboa, a quem expressei o bloqueio que a situação anterior estaria a provocar às novas construções em taipa. Também politicamente houve interesse em resolver o problema, o que revela que o tema não é indiferente à nossa região.
Congratulo esta conquista que revela que a união ainda faz a força e a discussão ainda traz a luz!
Miguel Peixinho
Não é preciso um segundo olhar para percebermos que o Miguel é um espírito livre. O próprio cabelo revela que o vento é a sua estrada. Quanto ao seu veículo, pode ser um veleiro, onde é peixinho na água, mas é habitualmente a sua mota de aventura, que o acompanha nas suas travessias do Alentejo.
A sua liberdade aumenta no momento de projectar. Quando visitei a sua casa, a primeira sensação foi de perder o eixo. O ângulo dos rústicos pilares de madeira do telheiro leva-nos a um mergulho no vale, lindo, do principal afluente do Mira. Uma das janelas assumiu a forma de uma racha na taipa que o tempo consolidou e que faz entrar a luz por raios de sol. Ao contrário do que todos faríamos, a salamandra está no exterior, ao lado de uma mesa de desenho, porque é no exterior que o Miguel gosta de projectar, sob as estrelas do céu negro dos Troviscais.
Se a originalidade dos ambientes acima descritos o está a remeter para imagens de uma casa estrambólica, desimagine-se! O Miguel combina todo o seu arrojo com integrações imaculadas na natureza e total respeito pela cultura local. Para esse efeito contribui a criteriosa escolha de materiais, predominantemente naturais e locais, como a telha de baixa cozedura, a pedra aparelhada, a madeira rústica e, sempre que se justifica, a taipa.
Rui Graça - A tua arquitectura é a prova viva de que a Arquitectura Alentejana é perfeitamente adaptável às mais arrojadas e inovadoras formas de vida. Podes explicar a tua ideia de arquitectura alentejana e a forma como se manifesta nas tuas obras?
Miguel Peixinho - A minha ideia de arquitectura alentejana passa por conseguir proporcionar aos meus clientes uma leitura clara e evidente deste território. Poderia dizer que assumo um papel de tradutor, traduzo ideias, programas e muitas vezes imagens de quem me procura para que as obras se integram de forma natural e positiva na fabulosa paisagem e cultura da região. Neste processo de aproximação a este território, apaixonei-me pelas antigas casas da região, sendo muitas vezes o ponto de partida físico dos meus projectos. Sou, como disseste um adepto dos recursos locais (ao invés de soluções globais cada vez mais estandardizadas) dos quais me sirvo e ao mesmo tempo estimulo para resultados arquitectónicos verdadeiramente sustentáveis e singulares.
Existe ainda um factor relevante, característico e próprio do Alentejo, a luz que fascina o mundo da arquitectura, e particularmente nesta latitude, em que a sua abundância nos faz reflectir sobre o seu uso adequado. As tipologias habituais, para além da sua utilização nos espaços interiores fazem-me reflectir bastante nos espaços exteriores: terraços, pérgulas, pátios ou telheiros, espaços estes que normalmente complementam de forma imprescindível os espaços interiores, quer em vivência quer em composição. Fazem a ligação à envolvente paisagística, muitas vezes em estado puro e duro.
RG - O meu professor do último ano da faculdade, o Manuel Aires Mateus, aconselhava-nos a não desperdiçar uma única oportunidade para exercer boa Arquitectura, por mais insignificante que parecesse o projecto. Essas palavras ecoaram quando me deparei com a pequena garagem que fizeste no aglomerado dos Troviscais. Eu diria que aquela pequena construção com cerca de 20m2 estaria condenada a ser um anexo manhoso (como tantos que infelizmente vemos na paisagem) mas não, a tua interpretação dos mourões criou uma silhueta à pequena garagem, toda branca, que dignifica o conjunto de casinhas onde se insere. Quando soube que tinhas sido tu o projectista tirei-te o chapéu, sem te conhecer ainda. Revelaste nesse projecto uma ética e um respeito profundo pelos lugares que transformas! Se fosses professor de projecto, que conselho darias aos teus alunos no caso de projectarem no Alentejo?
MP - Eu lembro-me de ter lido as teorias do famoso arquitecto Christopher Alexander (bem conhecido por ser dos primeiros a criticar a arquitectura modernista pela degradação social que provocava). Ele dizia que para se projectar consistentemente para uma família seria necessário viver com essa família cerca de seis meses.
À semelhança de Christopher Alexander, eu aconselharia esses jovens arquitectos a viverem seis meses, mas no Alentejo, na região onde projectassem. Acho deveras importante sentir as cores, os ventos, os cheiros e as diferentes luzes do dia, nas diferentes alturas do ano. Conhecer as casas antigas, sentir a força e sensibilidade da terra das suas paredes, perceber as cores das pedras, dos barros e o branco próprio da cal. Da mesma maneira que o projecto de uma casa não deve ser estranho para os hábitos de uma determinada família, muito menos deve ser estranho numa região sensível e natural como a nossa.
Acho igualmente importante ler e interiorizar, com humildade, os Regulamentos Municipais. Eu revejo-me bastante no Regulamento Municipal de Odemira que, por mais antigo que seja, mantém presente a necessidade de perpetuar algumas características intrínsecas da arquitectura regional: a proporção dos vãos, a dominância do branco nas fachadas ou a importância de um determinado tipo de telha nas coberturas, por exemplo.
RG - Como sabemos, o Alentejo é muito grande e manifesta diferenças arquitectónicas, às vezes significativas de região para região. Ao contrário de Évora, onde as chaminés são grandes e há diversos ornamentos nas fachadas, nos Troviscais, onde te sediaste, fruto da pobreza e do relevo, muitas casas tinham apenas uma água, chaminés pequenas e raríssimos ornamentos. Pode dizer-se que a influência do essencial contribuiu para a imagem moderna da tua arquitectura?
MP - Claro que assumo a influência das referências que me cercam. Tento que essas imagens estejam espelhadas nas minhas obras, o que só acontece depois de uma evolução profunda e muito criativa desses princípios. As exigências modernas são enormes, quer em termos programáticos quer em termos legais. Dito isto pode parecer capricho a insistência no arquétipo da arquitectura local, mas penso que não é: Tenho obtido excelentes resultados, mesmo em exigentes unidades de Turismo Rural, como o Monte da Vilarinha em Aljezur, por exemplo. Os materiais locais e naturais, para além de serem muito apreciados e "venderem" bem os espaços, têm envelhecimentos muito nobres, factor que valorizo bastante... (quantas Câmaras Municipais, Escolas ou Teatros não conhecemos com centenas de anos a exercerem cada vez mais fascínio a quem os usa).
Por vezes tenho clientes que me procuram mas trazem imagens de arquitecturas que eu entendo que não se coadunam na região. Lembro-me de uma senhora insistir em ter uma janela de 5 metros pela altura da casa. Eu disse-lhe que poderia ter essa janela mas seria necessário combiná-la com uma área de parede de dimensão equilibrada. A esmagadora maioria dos clientes, no processo de projecto, acaba por perceber a relevância do arquétipo da arquitectura regional, mais facilmente ainda numa base simples como as casas dos Troviscais que referes, eventualmente mais moldável e de imagem mais depurada, como tantas vezes se deseja. Por outro lado, a experiência tem mostrado que a "arquitectura moderna cliché", de aspecto mais ou menos minimalista, cobertura plana e muto vidro, das duas uma: ou é exorbitantemente cara (o que revela a sua insustentabilidade) ou é perigosamente propícia a problemas sérios na sua manutenção.
Como disseste e bem, nem sempre recorro à taipa, mas sinto a obrigação de recorrer à arquitectura alentejana e aos recursos locais. Mesmo assim, tenho a dizer que, a experiência de projectar em taipa contribuiu muitíssimo para apurar a lógica das volumetrias e proporções próprias da arquitectura local. É realmente um exercício altamente pedagógico que, mais do que uma aproximação à técnica revela-se uma aproximação ao espírito intemporal de uma região!
Conclusão:
Numa de muitas conversas com um arquitecto amigo meu, que me visita regularmente ao Alentejo, lamentava ele a pobre integração de uma grande construção dessa "arquitectura moderna cliché", acrescentando que a linguagem "vanguardista" em causa estaria fora de moda.
Ao mesmo tempo que me veio a evidência de que qualquer obra arquitectónica que passe de moda ou perca a relevância no seu tempo de vida útil é um fracasso, tive de reflectir sobre a existência dessa moda e como se manifesta na nossa sociedade.
Lembrei-me dos anúncios de automóveis, principalmente dos que mais apelam a um carácter tecnológico, como os BMW, por exemplo. As casas que acompanham esses carros, para reforçarem a modernidade dos seus proprietários são sempre edifícios de excepção mas que nos últimos anos têm mudado substancialmente, acompanhando a moda. Há uns anos eram casas brancas, sempre com cobertura plana e muito vidro, depois começámos a ver apontamentos mais orgânicos como madeira ou pedra natural. Actualmente, já não me espantaria ver cortiça aparente nessas casas, já que os próprios carros mais vanguardistas apregoam com maior veemência materiais sustentáveis na sua construção, muitas vezes a própria cortiça. Eu diria mesmo que não estamos livres de ver um dia destes uma casa do Miguel Peixinho num anúncio a um "BMW" X12.
É natural que as casas reflictam a personalidade dos seus donos mas, como reforçou o Miguel, sem que descaracterizem os locais onde se inserem. Quem não conhece inúmeras vivendas dos anos oitenta e noventa, à saída das localidades, com complexos jogos de telhados, entradas com azulejos folclóricos e jogos de escadas manhosos? As casas dos denominados patos bravos ou novos-ricos, a quem a vida trouxe fortuna mas não muito gosto ou cultura. Casas mal pensadas que cumpriam essencialmente função de ostentação económica. Casas tão feias e descaracterizadoras que o tempo, infelizmente, nunca as vai branquear.
O pato bravo ou o novo-rico do novo milénio, para não se enganar, em vez dos inúmeros telhados, jogos de escadas ou entradas com azulejos, opta pela arquitectura "minimalista" e "vanguardista". Na verdade o pato bravo é uma espécie em vias de extinção e o novo-rico, muito mais do que dinheiro, hoje em dia, quer ostentar cultura, modernismo ou mundo, como agora se diz. O problema é que grande parte destas casas "minimalistas" ou "vanguardistas", tal como as casas do pato bravo original, são mais caras e igualmente descaracterizadoras dos lugares que as recebem. Já o tempo, não as vai branquear, vai desmascará-las!
Se há, obviamente, fabulosos exercícios de design e construção diferenciada, os mesmos, como é próprio da arquitectura, não se integram em qualquer local nem de qualquer maneira. Há que haver critérios sensíveis para o uso de composições arquitectónicas distintas das que caracterizam as regiões, por isso mesmo, caro leitor, se está planear construir a sua casa moderna, veja bem se a mesma não fica fora de moda no momento em que estiver pronta.'

03 março 2022

Exemplo_Edifício de Escritórios l'Orangery_Îlot B2–Lyon Confluence_França












Edifício de Escritórios l'Orangery_Îlot B2–Lyon Confluence, França
Clément Vergély Architectes_2015-2021

02 março 2022

Webinar_Revisiting Earthen Architecture giving new meaning and Investigating New Ways

Webinar_Revisiting Earthen Architecture giving new meaning and Investigating New Ways
The use of earth as a building material goes back to the earliest days of architecture. For thousands of years, houses and palaces were made and remade, leaving little trace on the landscape. It was only with the advent of industrialization processes that the material was replaced and discarded, and associated with primitive ways of building.
Environmental concerns and the pressures of climate change have brought back clay as a carbon-neutral construction material and once more made it a focus of architectural interest. Today’s architects and researchers, such as Swiss architects Roger Bolthauser and Fabio Gramazio from Gramazio Kohler Research, are giving it further meaning and investigating new, more efficient and durable approaches to building with earth, through lexical and technological investigations.
Bolthauser and his students reinvent the technique of rammed earth in Kiln Tower (Torre-Forno), where prefabricated bricks are associated with tensioned bars. Digital fabrication is the subject of Gramazio Kohler's research, in which a robotic arm is used to build a rotunda out of clay to serve as a music studio.
To explore these topics, Insight Architecture and Swissnex in Brazil invites Fabio Gramazio and Roger Boltshauser, both professors at the Swiss Federal Institute of Technology ETH Zurich to this webinar. They will present their work and discuss the challenges and opportunities they see in earthen architecture for the future of our cities. Pedro Rivera, architect and founder of Rua Arquitetos will moderate the conversation. The event will be held in English, with simultaneous translation to Portuguese. The webinar is part of the Insight Architecture’s Future Now event, which investigates the use of sustainable materials and new construction techniques such as digital fabrication in architecture as part of the 27th World Congress of Architects UIA 2021 Rio calendar.
Participants
Fabio Gramazio is an architect with multi-disciplinary interests ranging from computational design and robotic fabrication to material innovation. In 2000, he founded the architecture practice Gramazio & Kohler in conjunction with his partner Matthias Kohler, where numerous award-wining designs have been realized. Current projects include the design of the Empa NEST research platform, a future living and working laboratory for sustainable building construction. Opening also the world’s first architectural robotic laboratory at ETH Zurich, Gramazio & Kohler’s research has been formative in the field of digital architecture, setting precedence and de facto creating a new research field merging advanced architectural design and additive fabrication processes through the customized use of industrial robots. This ranges from 1:1 prototype installations to the design of robotically fabricated high-rises. His recent research is outlined and theoretically framed in the book The Robotic Touch: How Robots Change Architecture (Park Books, 2014). From 2017 to 2019, Fabio Gramazio was Director of Studies for Bachelor and Master Architecture.
Roger Boltshauser: After his graduation from ETH Zurich, Roger Boltshauser founded his office ‘Boltshauser Architekten AG’ in 1996 in Zurich. In addition to his practice, he was a research assistant at the Institute for the History and Theory of Architecture (gta) from 1996 to 1998 and a teaching assistant at the chair of Peter Märkli at ETH Zurich and EPFL Lausanne from 1997 and 1999. Between 2004 and 2010 he was engaged as a lecturer for design at the University of Applied Sciences Chur (HTW) and between 2005 and 2009 at the master degree course at Anhalt University of Applied Sciences (DIA) and Chur Institute of Architecture (CIA). From 2016 to 2017 he was a guest professor at EPFL Lausanne and from 2017 to 2018 at TU Munich. Since 2018 he is a guest professor at ETH Zurich. 
Moderation: Pedro Rivera is an architect and urbanist whose work flows between design and research, with focus in the relations among architecture, art and urban inequality. He is a co-founder of Rua Arquitetos, in Rio de Janeiro and an Adjunct Assistant Professor at GSAPP Columbia University. From 2011 to 2017, he was director and curator at GSAPP’s Studio-X Rio, in charge of curating and organizing lectures, exhibitions and workshops, as well as researches such as Fight, Squat, Resist (2016) and Housing Project (2017), both on housing issues. His designs include the Rio 2016 Olympic Golf Course Clubhouse, art galleries and cultural spaces for NGOs in the favelas of Rio de Janeiro. Rivera had works exhibited at MoMA (New York, 2014), MAK (Wien, 2015), Carnegie Museum of Art (Pittsburgh, 2016), Het Nieuwe Instituut (Rotterdam, 2016) and MAM São Paulo (2017); as well as in the architecture biennials of Hong Kong/Shenzen (2014), Chicago (2015), Venice (2016) and São Paulo (2017). Rivera holds a masters degree in urbanism at the Federal University of Rio de Janeiro. rualab.com
This webinar is an insightful discussion on the use of earth and clay in modern architecture and buildings with architects and researchers from Brazil and Switzerland that are exploring more efficient and durable ways to build with earth. Click on the timecodes below to be redirected to their point in the recording: 
[0:00] Intro Insight Architecture; 
[06:21] Intro Swissnex in Brazil; 
[08:30] Pedro Rivera - Moderator; 
[12:40] Roger Boltshauser; 
[29:30] Fabio Gramazio; 
[40:35] Q & A with the participants;
Watch the full livestream 
here

25 fevereiro 2022

'Sudoeste Alentejano - Materiais de construção tradicionais'_António Martins Quaresma

Excerto do texto 'Sudoeste Alentejano - Materiais de construção tradicionais' de António Martins Quaresma
Ficha técnica
Autor: António Martins Quaresma
Título: Sudoeste Alentejano: materiais de construção tradicionais
Data: texto inicial – 2003; texto final – 2014
Local: Vila Nova de Milfontes 
'Este texto faz uma breve incursão histórica na arquitectura vernácula regional, embora apenas no estrito plano dos materiais utilizados na construção. Ele parte de uma comunicação apresentada, em 2003, em Sines, num seminário sobre “arquitectura em terra”1, agora refeita e acrescentada com novas fotografias. Para o efeito, utilizaram-se algumas fontes históricas escritas e observação decampo de velhas casas, a maioria em ruína. Terra, pedra, madeira, cortiça, junco, cana aparecem-nos como materiais utilizados na construção de habitações, celeiros, currais, fornos, moinhos, etc., confeccionadas decerto através das competências genéricas da própria população utente, ou por especialistas, como pedreiros/alvanéus e carpinteiros.
Da terra e da pedra
Em 1758, o pároco de Vila Nova de Milfontes escrevia sobre as consequências do terramoto de 1755: “foi Deus servido ficassem ilesas as casas desta vila, sem que alguma delas padecesse ruína considerável, sendo, como são, quase todas fabricadas de terra a que chamam taipa”.2
Quase todas as casas da vila eram, portanto, de taipa; tratava-se, naturalmente, de pequenos edifícios, em que os movimentos da terra não tiveram repercussão de grande amplitude. Os estragos mais severos verificaram-se nos edifícios maiores, construídos em alvenaria de pedra e cal. Curioso, mas natural, o efeito do maremoto nas casas junto ao rio: de taipa, decerto, delas “apenas ficou sinal onde tinham sido edificadas”.3
Vale da Casca, São Luís, Odemira (no original, “Carrego da Casca, Odemira”, Casa de taipa, com curiosos efeitos decorativos, e seu forno. Foto in Arquitectura Popular em Portugal, vol. 2, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2004, p. 296 (1.ª ed. 1961).

O uso da cal era escasso. Perto, em Aljezur, no princípio do século XIX, um viajante estranhava a cor escura das casas, muitas delas de pedra (decerto xisto), sem argamassa, visto que a cal era ali um artigo raro. A impressão tornava-se mais forte porque o viajante estava a sair do Algarve, onde as casas eram, normalmente, caiadas.4
Um último exemplo da dificuldade em obter esse produto. Em 1687, uma carreta foi de Alvalade buscar uma carrada de cal a Milfontes: a cal custou cinco tostões, quantia que naturalmente incluía o frete marítimo; o transporte até Alvalade ficou em 12 tostões. Total: 17 tostões (1.700 réis). Mais caro o transporte que o produto!5
Em meados do século XIX, as casas de Sines, cujo número de térreas orçava o de altas, eram todas caiadas e quase todas de pedra e cal.No entanto, um dos arrabaldes, do lado leste, a Aldeia dos Cucos, de feição mais popular, era composto quase todo de “casinholas de taipa”.7
Forninhos, Vila Nova de Milfontes, Odemira. Restos de moinho de vento, de grossas
paredes de taipa. Foto AMQ (2014).

No território do actual concelho de Odemira, a taipa era largamente dominante em muitas áreas, não só nas pequenas moradias, mas até em edifícios de maior importância. É interessante a menção à taipa em igrejas como a de Colos, vila que viu a sua matriz reedificada em tempo de D. Manuel. Conforme visitação da Ordem de Santiago, datada de 1554, a capela-mor era de alvenaria, coberta de abóbada, de lavor manuelino (hoje inexistente). A nave possuía paredes de alvenaria até metade da sua altura (portanto, não apenas nos caboucos) e, do meio para cima, “de taipa, com seu formigão de fora”.Três arcos de tijolo, intercalados, reforçavam-na.9
A utilização simultânea de alvenaria de pedra e de taipa na mesma parede é uma técnica que permaneceu até hoje, sendo que a alvenaria era utilizada na parte inferior, com maior desempenho estrutural, decerto por ser considerada mais resistente a cargas e menos susceptível de ser afectada pela erosão da água da chuva que corria no exterior e pela humidade ascendente. O “seu formigão de fora” parece significar que a taipa era revestida exteriormente com formigão. Parece clara a consciência das limitações da taipa quando se tratava de pedir às paredes maior resistência, como no caso das coberturas em abóbada. Cedo também se verifica a utilização de “taipas”, cercando adros e protegendo as paredes das igrejas da invasão das águas das chuvas, como na igreja do Cercal, em 1565.10 
E, nos arredores das povoações e em zonas onde surgia a repartição da propriedade, caracterizada pela policultura e tratamento intensivo da terra, a prática de cercar essas pequenas parcelas divulgou-se sobremaneira. Tratava-se de proteger, da acção de animais e de pessoas, as valiosas culturas (vinhas, hortícolas, olivais) existentes nessas parcelas, para o efeito “vedadas e coimeiras”. Em Colos, por exemplo, as próprias posturas municipais contemplavam a questão do “tapejo” de vinhas, hortas e, até, ferragiais.11 
Relíquias, Odemira. Casa de alvenaria de pedra e de taipa. Foto: Ordem dos Arquitectos, PT￾OA-IARP-BJA-ODM02-003, (1955).

Estas taipas, de que ainda existem vestígios, marcavam a paisagem. Sobre cabouco de pedra, erguiam-se a cerca de um metro de altura. Muitas vezes, eram “bardadas”, isto é, encimadas por uma camada de mato, coberto de terra batida em ângulo; pranchas de cortiça substituíam por vezes o mato. Mato ou cortiça sobressaíam alguns centímetros para cada lado do muro, melhorando a protecção e dificultando a transposição por pessoas ou animais.12 Os viajantes estrangeiros reparavam nesses muros cobertos de cortiça e faziam-lhes menção nos seus livros de viagens.13
Parecem ter dado origem a certos topónimos com o elemento “taipa” (Vale das Taipas, por exemplo). Naturalmente, a construção de casas e, onde os havia, de muros para cercas exigia extracção de terra. Quando esta se fazia em grande quantidade, os homens do governo municipal eram obrigados a regulamentar: em Colos, em 1709, uma postura proibia a extracção indiscriminada de terra em volta da vila e reservava um local para o efeito; a respectiva coima era a dobrar quando o infractor fosse pedreiro ou servente.14 
A terra aplicou-se igualmente noutros tipos de construções, como os moinhos de vento, de que é exemplo o moinho dos Forninhos, em Milfontes (séc. XX), embora a utilização da alvenaria de pedra fosse nestes edifícios mais empregada. A grande resistência exigida à estrutura tornava preferencial a construções em pedra, mas a opção também dependia da zona, uma vez que os moinhos de taipa parecem ser mais frequentes naquelas em que a taipa era mais usual na construção.
Monte da Comuna, Fornalhas, Vale de Santiago, Odemira. Restos de parede de taipa de um
edifício “histórico”. Foto AMQ (2014)

Já no século XX, verificamos que, em vários lugares do concelho de Odemira, por exemplo, a taipa foi sobretudo utilizada em construções térreas, mas o seu uso também em edifícios de dois pisos não deixou de se verificar, como podemos ver em Relíquias e São Teotónio, por exemplo.15
É preciso realçar que o uso da pedra, associada ou não à taipa, é também muito comum. Em algumas áreas deste concelho, era frequente a construção rural em alvenaria de pedra, sem reboco. Na zona serrana do concelho de Odemira, como na freguesia de São Martinho, a construção em pedra sobrelevava, mesmo, a taipa. Recintos para guarda de animais, em pedra, também eram correntes. Era utilizado sobretudo o xisto (de vários tipos e durezas), mas também o quartzo, o quartzito, o grauvaque e o arenito, conforme as áreas de distribuição destas rochas.(...)'
Monte em Luzianes, Odemira. Pedra e terra. Foto AMQ (2010).

1. Organizado pela Ordem dos Arquitectos, Secção Regional do Sul, Núcleo do Litoral Alentejano.
2. António Martins QUARESMA, Odemira Histórica. Estudos e Documentos. Odemira, Câmara Municipal, 2006, p. 302. Grafia actualizada, como nas transcrições seguintes.
3. Ibidem.
4. George LANDMANN, Historical, military and Picturesque Observations on Portugal, II volume (Military and Picturesque Observations on Portugal), London, T. Cadell and W. Davies, Strand, 1818, p. 141.
5. Quinzenário Nossa Terra (editado em Santiago do Cacém), n.º 26, 3 de Julho de 1932 (agradeço a referência a João Madeira).
6. Na altura, segundo a mesma fonte, havia nesta vila três fornos de cal.
7. Francisco Luiz LOPES, Breve Noticia de Sines, Patria de Vasco da Gama, Lisboa, Na Typographia Panorama, 1850 (ed. fac-similada da Câmara Municipal de Sines, 1985), pp. 34, 35, 38 e 51.
8. No formigão juntavam-se cal, em alta proporção, e terra (ou areia), eventualmente gravilha, sendo o composto utilizado de forma semelhante à taipa, em cofragem de madeira (taipais). Obtinha-se assim um cimento de grande resistência e durabilidade.
9. ANTT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Visitações, n.º 197, fls. 16 e 16v.
10. ANTT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Visitações, n.º 212, fl. 15.
11. AHMO, Colos, Posturas, 1691-1732, GB 2/1, passim.
12. António Machado GUERREIRO, Colos – Alentejo – Elementos Monográficos, Odemira, Câmara Municipal de Odemira, 1987, pp. 67 e 94.
13. Lívio Costa GUEDES, A Viagem de Christian, Príncipe de Waldeck, ao Alentejo e ao Algarve descrita pelo Barão von Wiederhold 1798, Lisboa, 1992 (separata do 60.º vol. do Arquivo Histórico Militar), p. 171.
14. AHMO, Posturas, 1691-1732, GB 2/ 1, fs 29 e 30.
15. Cfr. fotos existentes no arquivo fotográfico da Ordem dos Arquitectos. Em linha: http://www.oapix.org.pt/400000/1/index.htm.

23 fevereiro 2022

Graça Jalles_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 20/05/2021
Graça Jalles
'Conheci a Graça Jalles há cerca de 20 anos, tinha saído de Macau onde exerceu uma boa parte do seu percurso profissional. Estava a entrar ao serviço no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Se a Graça entrou no referido Parque Natural por questões de princípio, consta que foi também por questões de princípio que abandonou a respectiva instituição.
A Graça tinha adquirido uma propriedade perto duma margem do rio Mira e acabou por se dedicar ao desenvolvimento do seu fabuloso terreno, transportando para esse projecto todos os seus princípios e convicções ambientais.
A construção em taipa acabou por ser a opção mais natural! Num primeiro momento com a construção da habitação própria, uma obra de raiz, e num segundo momento pela recuperação de três construções muito antigas para uso turístico.
Rui Graça - Se a construção em taipa é extremamente versátil e personalizável, a tua casa acaba por ser um excelente exemplo disso mesmo, pela integração de um jardim de inverno, pela forma original das janelas, ou pelo volume solto em pedra no centro da construção. A casa integra uma influência oriental, como um reflexo da tua própria personalidade. Quais os princípios que pautaram a adaptação da arquitectura alentejana tradicional à tua vida?
Graça Jalles - A Casa foi concebida em primeiro lugar de forma a respeitar os valores tradicionais da arquitectura alentejana quer nos materiais quer na "forma". Apesar de não gostar de me referir a forma na Arquitectura ela é bem definida nessa arquitectura. Casas em terra que se desenvolvem sobre o comprido, de planta rectangular e cércea baixa. Situadas geralmente a meia encosta e com inúmeras divisões com portas para o exterior e que por vezes não se interligam no interior. Nas traseiras situa-se geralmente a arramada de cércea ainda mais baixa e cuja cobertura surge na continuação da cobertura da Casa principal originando uma curvatura muito subtil no todo da cobertura que relembra um pouco as coberturas das Casas que me habituei a ver no Oriente mas que neste caso é profundamente alentejano. É de uma beleza extraordinária e de uma harmonia perfeita com a natureza onde as curvas proliferam e o resultado final tão integrado na paisagem é ele próprio fruto da sabedoria do tempo que lhe moldou a "forma".
Estes valores tiveram de entrar em diálogo com o meu "eu" contemporâneo porque era a Casa onde ia viver. O Jardim de Inverno surgiu por ser uma ideia antiga e me poder proporcionar o que vivenciei algumas vezes no Oriente, particularmente nas Casa Tailandesas, em que o interior e o exterior da Casas se interligam harmoniosamente não se percebendo onde começa um e acaba o outro. Na distribuição do espaço interior procurei isso mesmo. Não existem portas e o espaço flui de umas divisões para as outras tirando partido também do desnível do terreno.
A fonte de calor que este Jardim de Inverno iria provocar dentro da Casa particularmente nos meses de Verão também não seria problema para mim e até uma necessidade. Em Macau nos meses mais quentes a humidade poderia ir até quase aos 100% com temperaturas acima dos 30º. Adaptei-me bem a este clima e precisava dele aqui.
Colocava-se a questão de passar a haver uma contradição em termos energéticos e esta fonte de calor tirar a eficácia, particularmente no Verão, da construção em taipa que se pauta por ambientes frescos dentro de Casa quando lá fora o calor aperta e uma humidade saudável e constante dentro da mesma. Era um risco que eu estava disposta a correr e cujo resultado iria assumir.
Quis também recriar na íntegra os muros antigos de xisto existentes nas construções tradicionais utilizando-os quer nas paredes exteriores quer transportando-os para o interior tentando assim obter a tal harmonia entre o interior e o exterior da Casa acima referida.
A forma original das janelas surgiu naturalmente por se situarem lado a lado do local da parede onde estava prevista uma lareira ou chupão alentejano, o qual acabou por não ser construído por falta de verbas. Também eram sinal de alguma irreverência. Hoje penso que já não construirei o chupão assumindo-o mais como um erro de projecto mas fico-me com a irreverência não deixando tal como está de fazer jus à tal linearidade e simplicidade das fachadas dos Montes Alentejanos.
Por último e não me querendo alongar nem fugir à tua questão é importante referir o seguinte. O Projecto desta Casa foi concebido no princípio do milénio numa altura muito dolorosa da minha vida e de integração num ambiente completamente novo já que tinha transitado directamente de Macau, onde vivi 10 anos e de onde saí em 1998, para Odemira mais precisamente para os Troviscais, por opção pessoal e pela natureza. Para além do processo de integração num País que eu já não conhecia e numa realidade habitacional nova na minha vida, já que sou originariamente de Lisboa, o ambiente era hostil com excepção da comunidade local autóctone mais velha a qual actualmente já quase toda partiu e que com quem partilhava os mesmos valores de vida.
Acredito que nas opções de concepção desta casa apenas uma pequena parte corresponda a uma consciência racional e egoísta no bom sentido do termo, daquilo a que me propus.
O ato criativo é sempre doloroso mas também nos abre ao sobrenatural e a respostas que vão para além de nós mesmos e por outro lado nos põe em contacto com o nosso eu mais profundo. Portanto a angústia vivida na altura, porque enfrentada e não mascarada, foi um ónus e um bónus no processo criativo desta casa. Talvez por isso ainda hoje ela me surpreenda e talvez por isso o ter sido nomeada num concurso público de obras arquitectónicas.
RG - É muito curioso que um projecto como o da tua casa, onde se destaca imediatamente a taipa, tenha recebido uma menção honrosa no concurso que referiste, precisamente, sobre a utilização da pedra na arquitectura. Que critérios usaste na relação da taipa com outros materiais.
GJ - Os muros de xisto surgiram, primeiro porque tinha muito xisto na propriedade, depois porque como referi acima queria recriar os muros antigos alentejanos em xisto com 50 ou 60cm de espessura, com pedras escolhidas e moladas pelo artesão e argamassas de cal e terra. Queria proporcionar a tal relação entre o exterior e o interior da Casa e a sua utilização também num espaço interior iria contribuir para essa integração. A Casa encontra-se bastante isolada mas o caminho público passa perto. Os muros de xisto funcionavam como paredes dum forte que permitiam até pela sua altura uma visibilidade de dentro para fora e não o contrário. Houve aliás a preocupação nesta fachada da Casa de quase não colocar vãos de portas ou janelas. A Taipa e o xisto têm uma simbiose forte e natural. Não era difícil utilizar ambos os materiais. As argamassas eram também de terra e cal. No fundo era recriar a natureza moldando-a diferentemente. Queria experimentar de tudo um pouco e por isso construí também as paredes interiores menos espessas em adobe feito por mim e por uma vizinha local, Bárbara, com molde construído por outro vizinho, Ti Brissos, ambos já falecidos.
RG - Quando descemos da tua casa para a várzea, que faz ligação ao rio Mira, entramos numa área onde se sente a natureza em estado puro, a proximidade ao rio e à água faz explodir a biodiversidade. Os cheiros, as cores e os sons fazem-nos sentir em espaço sagrado. Neste cenário encontramos três casinhas em taipa que aparecem como se sempre lá estivessem. Eu sei (cheguei a vê-las em ruínas numa vistoria camarária) que as casinhas foram alvo de uma reabilitação tua, sendo agora pequenas unidades turísticas. Podes explicar os critérios que utilizaste na reconstrução numa área tão sensível?
GJ - Sim as Casas apropriaram-se daquele espaço. Já estavam ali há alguns anos, construídas pelo antigo proprietário, Ti Gracindo. Estavam em ruínas e quando deixei o Parque Natural teria de ter uma fonte de subsistência e surgiu a ideia de as recuperar.
Comecei pela Casa da Adega onde o antigo proprietário fazia vinho. quatro anos depois recuperei a Casa do Tanque, uma antiga arrecadação e por último a Casa do Pomar um antigo abrigo de animais. As três constituem actualmente o Turismo Rural Casas da Cerca.
É um espaço místico e muito peculiar já que se situa num "corgo" em alentejano local ou córrego em bom português. É um espaço naturalmente confinado e donde se tem acesso ao Rio que fica logo ali, a 1,5km de distância.
Digamos que as Casas acompanharam o meu percurso evolutivo como pessoa durante estes 22 anos.
O objectivo foi sempre o de não deturpar os valores arquitectónicos das mesmas e acima de tudo preservar os valores de vida que representavam.
É preciso pensar que por detrás de reconstruções de casas em ruínas nesta zona estão histórias antigas de vidas vividas e sofridas. Não é fácil viver no Alentejo antes como agora. Não é por acaso que o Alentejano é orgulhoso. A solidão aperta e a fome também. Daí a nobreza de carácter de quem sobreviveu e que tantas vezes detectei na postura desta gente presente inevitavelmente na sua postura corporal e no seu olhar. As Casas, hoje ruínas, em que viveram reflectem isso mesmo. Numa recuperação terá de necessariamente de se ter respeito por esses valores e conferir-lhes dignidade enfatizando-os através da abordagem arquitectónica e ajeitando-lhe a "roupagem". Foram estes princípios que me guiaram na reconstrução das Casas tendo em mente o seu uso final de Turismo Rural e um respeito pela natureza presente também nos materiais utilizados.
Todas as Casas tinham a sua própria identidade. A Casa da Adega, a primeira logo à entrada com 2 pisos impunha-se por si só. A Casa do Tanque na outra ponta em cima de um pedestal e apesar da sua pequenez e pela sua pequenez também brilhava. A Casa do Pomar situada no meio destas duas foi a mais difícil de conceber no processo de reconstrução. Era preciso que não tirasse identidade nem força às outras uma vez que estava muito próxima das mesmas, mas que se afirmasse de outra forma, digamos que teria de ser mais discreta. Assim optei por reconstruí-la com uma cércea ligeiramente mais baixa que a Casa do Tanque localizada imediatamente a seguir, e optei também por não abrir vãos de janela nas paredes exteriores. Abri antes na cobertura. Depois a natureza encarregar-se-ia de a revestir exteriormente de vegetação. Seria uma Casa/Abrigo. Das três Casas esta é a mais profunda e a que se identifica mais com o local onde está situada. Remete-nos para o transcendente onde a entrada de luz na cobertura é um pequeno sinal e obriga-nos a ficar no escuro, sem distracções do exterior, onde só o essencial luze. É quanto a mim também a que consegue mais empatia com o modo de vida dos alentejanos de uma geração que começou já a desaparecer mas cujo legado é necessário e imperativo preservar.
Conclusão:
Muitos leitores provavelmente não sabem mas até 1970 (fora as raras excepções das sedes de concelho), não havia qualquer condicionante ou imposição a quem quisesse construir, fosse como fosse! Esta realidade hoje em dia pode parecer-nos pura ficção quando, por exemplo, abrir uma pequena janela numa casa de banho num monte isolado exige um processo de licenciamento regularmente com dezenas e dezenas de páginas…
Se a liberdade absoluta de construção nos pode parecer incrível e nos pode fazer especular sobre o que se faria hoje perante tal liberdade, a verdade é que os nossos antecessores deixaram-nos um Alentejo absolutamente preservado e lindo, ninguém o pode negar!
É um facto que as casas antigas da região, de uma forma generalizada, eram pobres e a grande maioria estava longe de se poder considerar habitação condigna nos padrões atuais, o que para muita gente responde à preservação da paisagem. No entanto, ao contrário do que acontecia antigamente, tempos de grande privação que a Graça Jalles bem retratou, hoje em dia a maioria das pessoas, que felizmente já tem tudo o que precisa, também tem quase tudo o que não precisa.
O drama hoje assenta na insustentabilidade do nosso estilo de vida, de tal maneira que até as crianças já nos chamam a atenção do flagelo ambiental em curso.
A vida era realmente mais dura antigamente no Alentejo, por isso mesmo, as casas antigas eram tão criteriosas: no local de implantação, predominantemente a meia encosta pela temperatura relativa mais favorável; na exposição que adoptavam, predominantemente a Nascente/Sul para protecção dos ventos dominantes e claro, nos materiais que eram quase exclusivamente locais porque os recursos (transporte e produção) eram muito escassos. O conhecimento dos terrenos, trabalhados de sol a sol, era profundo e era garantia da correta localização e proporção das casas que se construíam…
Em profundo contraste com a abordagem que reinou até aos anos 70, estamos a assistir a um fenómeno no nosso Alentejo que tende a alastrar como uma praga. Falo das casas de madeira, contentores, caravanas e afins, para mim as casas das três mentiras: 
1a Ecológicas - na maioria dos casos estas construções vão transformar-se em lixo. Mesmo as casas em madeira muito dificilmente resistiram muitos anos com as diferenças de humidade tão significativas do Alentejo (ao contrário do que se passa por exemplo na Tailândia onde a alta humidade relativa constante, que a Graça aprecia, as preserva) 
2a - Dispensam licenciamento - Eu diria mesmo que o seu licenciamento é mais difícil do que o de uma casa convencional porque, por norma não se enquadram nos Regulamentos Municipais que definem as normas construtivas de cada concelho (apenas o facto de se instalarem rapidamente faz com que só tarde sejam detectadas as irregularidades chegando normalmente os problemas aos donos só com o tempo)
3a - Permitem melhor contacto com a natureza - nem física nem visualmente. Muitas delas ficam literalmente a flutuar, assentes em pilarinhos ou vigas sobre um corte a direito no terreno e visualmente são objectos estranhos na paisagem, ainda mais estranhos na proximidade de outras casas porque são diametralmente opostas à cultura construtiva que nos caracteriza.
No momento em que escrevo estas linhas o país toma consciência do fenómeno migratório em curso pela necessidade de mão-de-obra, em grande quantidade e baixo custo, para as colheitas nas novas explorações agrícolas do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. A população nestas regiões vai seguramente subir aproximando-se dos níveis que se verificaram antes de 1970, antes dos êxodos para o estrangeiro e para as cidades. Seria assim tão absurdo aproximar também a construção às técnicas dessa época?'

Jornadas sobre construcción con la Técnica del Tapial_01 Novembro 2021

Jornadas sobre construcción con la Técnica del Tapial_01 Novembro 2021
Análisis interdisciplinar del Patrimonio Arquitectónico
Proyecto de innovación docente dirigido por las profesoras Concepción Cantillana Merchante y Margarita Infante Perea del Departamento de Ingeniería Gráfica en Universidad de Sevilla (España).
Esta experiencia docente tiene como propósito analisar los materiales compositivos y las técnicas de la Muralla Almohade de Sevilla.
El video de este evento está también disponible en Youtube aquí

22 fevereiro 2022

Workshop de Construção em Taipa_Aljezur_23-26 de Abril 2022

WORKSHOP de CONSTRUÇÃO EM TAIPA - Aljezur - Dias 23, 24, 25 e 26 de Abril 2022
Formação teórico-prática, inserida num contexto de intervenção pontual numa ruína em Aljezur, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (com alojamento na Pousada de Juventude da Arrifana).
Fique a saber mais sobre a construção em taipa, construindo e aprofundando entre taipais os conceitos de reconstrução e reabilitação destas estruturas.
Venha conhecer as ferramentas associadas a este material intemporal e uma tecnologia tradicional e ecológica!
Participe! 
Aqui pode aceder ao Programa e à Ficha de Inscrição.
Mais informação sobre esta formação em http://www.arqcoop.com/construcao-em-taipa/

Webinar_Future Now Pavilion - Webinar: Earth, Clay & Context

Future Now Pavilion - Webinar: Earth, Clay & Context_29th September 2021
Webinar jointly organized by Swissnex in Brazil and Insight Architecture. It is a discussion on the use of earth and clay in modern architecture, showing the shift from spectacular to vernacular architecture.
This debate is part of the complementary activities of the UIA2021RIO and intends to stress this discussion further, through the dialogue between prominent international architects, whose work is deeply connected with earthen architecture and biological materials.
Different civilizations in different parts of the world have been building with earth and clay for many centuries. Modern life and the current globalized world, though, have taken this material to a peripheral role in our cities. Its properties of climate and humidity regulation, its connection with the place where we build and its cultural traditions have been basically vanished through the appearance of other construction techniques and cheap energy in the 20th century. But this story seems to have an inflection point. The 27th World Congress of Architects UIA2021RIO brought strong voices advocating for a different kind of architecture – a shift from spectacular architecture to vernacular architecture.
Martin Rauch and Fernando Minto share their experience working primarily with earth and earth-based materials in such different contexts as Brazil and Europe.
Over the past 10 years, Martin Rauch has been intensively involved in the mechanical prefabrication of rammed earth building components. For this purpose, a worldwide unique process was developed to produce prefabricated rammed earth components in high homogeneous quality. This process has already been used in several large-scale projects on site and with local raw materials. The experience gained in these large-scale projects was integrated into the ERDEN factory workshop at the new production site in Schlins (Austria) by means of a production infrastructure customised for rammed earth construction. The ERDEN Werkhalle is a pioneering production facility for the industrial manufacture of rammed earth building elements.
The architecture and construction with earth in Brazil has been the object of increased interest. Gradually, research centers and private companies invest more resources for its repositioning in the current scenario compared to more conventional techniques. In this webinar, Fernando Minto will discuss the specificities of this modality in Brazil and the main characteristics that surround it in its territory, both in environmental and climatic aspects as well as in social aspects, including the current insertion in the construction market.
To explore these topics, Insight Architecture and Swissnex Brazil invited Martin Rauch (Austria), founder of Lehm Ton Erde Baukunst and Fernando Minto (Brazil), professor at the Federal University of Rio de Janeiro UFRJ to this webinar. They present their work and discuss the challenges and opportunities they see in earthen architecture for the future of our cities. Igor de Vetyemy, architect and president of the Brazilian Institute of Architects in Rio de Janeiro IAB moderates the conversation. The event was held in English and Portuguese, with simultaneous translation to both languages. The webinar was part of the Insight Architecture’s Future Now event, which investigates the use of sustainable materials and new construction techniques such as digital fabrication in architecture as part of the 27th World Congress of Architects UIA 2021 Rio calendar.

Participants
Martin Rauch was born in Schlins, Vorarlberg, Austria and graduated from the University of Applied Arts, Vienna. During three decades of research in theory and practice, Martin Rauch succeeded in updating traditional rammed earth techniques and integrating them into contemporary architecture, both in terms of design and technology. 1999 Foundation of the company Lehm Ton Erde Baukunst in Schlins; with this company he realized numerous international projects. He was awarded by the 2008 International Prize for Sustainable Architecture Fassa Bortolo Italy, 2008 Building Award of the Central Association of Austrian Architects, 2011 Holcim Award - Morocco and New European Bauhaus Prize 2021. 2003 to 2010 teaching at the Linz University of Art. International workshops in Bangladesh, South Africa and Austria in cooperation with BASEhabitat. Since 2010 honorary professor of the UNESCO chair Earthen architecture, building cultures and sustainable development. Since 2014 guest lecturer at the Swiss Federal Institute of Technology ETH Zurich.
Fernando Minto is an urbanist, architect and adjunct professor of the Department of Architecture and Urbanism FAU at the Federal University of Rio de Janeiro UFRJ. Minto obtains a master (FAU USP) and doctor (FAU UFRJ) in technology of architecture; he coordinates the architecture office Matéria Base in Rio de Janeiro and is an associate of Terrabrasil and of the Ibero-American network Proterra. He graduated from UNIMEP - UNESCO chair in earth construction in 1998, working with earth constructions since then. He was a founding member of ABCterra (1997), participated in the ABCTerra pavilions at the 3rd and 4th International Biennale of Architecture BIA in São Paulo and has worked on several projects with rammed earth.
Moderation: Igor de Vetyemy The Brazilian architect and professor Igor de Vetyemy is the general commissioner of the 27th World Congress of Architects UIA2021RIO and the current president of the Brazilian Institute of Architects IAB in Rio de Janeiro, ahead of a collective mandate called Oxigena IAB. Teacher and researcher in Universidade Veiga de Almeida, Universidade Estacio de Sá, and Istituto Europeo di Design, de Vetyemy works with earth architecture connecting students and indigene tribes in the state of Rio de Janeiro. He has been director of the Brazilian Institute of Architecture Education - ABEA. Author of Mutualistic Architecture, Compilation of projects reflections and buildings of Marcos Konder Netto, and Powers of ten – 100 exponents of Rio de Janeiro contemporary architecture, Igor de Vetyemy has also produced and directed the movie Konder – the magnificence of simplicity.
Click on the timecodes below to be redirected to their point in the recording: 
[0:00] Intro Event & Insight Architecture; 
[08:50] Intro Swissnex in Brazil; 
[10:10] Igor de Vetyemy - Moderator; 
[13:12] Martin Rauch; 
[39:31] Fernando Minto; 
[58:10] Q & A with the participants;
Watch the full livestream here

17 fevereiro 2022

Exemplo_Greenhouse Restaurant_China

Greenhouse Restaurant_Rammed earth wall
China
Architects: Chengdu Wide Horizon Investment Group
Area: 880 m²
Year: 2018
© Photos & plan: ARCH-EXIST, Jia Liu, Shi Chen, Chengdu Wide Horizon Investment Group

Glossário de Construção em Terra_Côvado

Côvado
Medida islâmica/medieval de carácter sagrado e módulo dimensional privilegiado de várias civilizações, correspondendo à distância anatómica do cotovelo à extremidade do dedo médio. 
Derivado do latim Cubitus, a sua medida varia conforme o sistema metrológico, sendo mais constantes as medidas próximas dos 0,525 m. Ainda hoje estão à vista nos castelos de Monsaraz e do Redondo os seus côvados que são respetivamente 0,555 m e 0,553 . 
Como unidade linear do sistema craveiro da tradição portuguesa subdivide-se em 2 pés ou em 3 palmos craveiros e equivale a cerca de 0,66 m (Reinado de Dom. Manuel).
A sua origem perde-se no tempo, sendo que todo o sistema de medidas muçulmano que chega à Península Ibérica se baseia precisamente no côvado. As medidas mais usuais neste período estão compreendidas, por um lado, entre 0,41m e 0,48m, por outro rondam os 0,51m.
Na metrologia hispano-árabe, no entanto, era frequente encontrar o côvado comum ou côvado mamuni com 0,47m, ou o côvado mediano identificado com o côvado rassasi de 0,572m. 
De modo específico, no sistema construtivo em taipa este designa também a peça estreita, em ferro ou de madeira, com a dimensão exacta da espessura da parede (sem os revestimentos), que se coloca no interior e topo superior entre taipais, com uma dupla função, de garantir que os mesmos permaneçam paralelos ao longo do apiloamento da terra no seu interior e, após a sua remoção, a de criar um orifício na alvenaria de taipa onde será introduzida a agulha que sustentará os taipais na fiada superior em fase seguinte da construção.
Outras Medidas Lineares ou de Comprimento
Vara - Aparece também referida nos castelos do Redondo e de Monsaraz junto ao côvado com a medida de 1,10 m, valendo portanto 2 côvados exactos.
Braça - Apresentava a medida de 2,20m, ou seja 4 côvados exatos, ou duas varas e manteve-se com esse valor ate á introdução do sistema decimal. Este valor correspondia ao Bà árabe.

Taipa Militar - Castelo de Paderne, construído no século XII durante o domínio Almóada 
© Fotos - José Alberto Ribeiro

Martin Trueb_Artigo_Jornal Sudoeste_Rui Graça

Artigo publicado pelo Arq. Rui Graça no jornal Sudoeste - quinta, 22/04/2021

Martin Trueb
'Nos primeiros anos do actual milénio o arquitecto Martin Trueb montava o seu cavalo lusitano no picadeiro do turismo rural "Naturarte". O facto de partilharmos o mesmo hobby no mesmo local, deu-me o privilégio de conversar com frequência com o Martin.
Se a arte secular da equitação portuguesa associada à notável genética do cavalo lusitano dava facilmente para um livro de crónicas, a nossa conversa mais regularmente derivava para a arquitectura regional, mais concretamente para a arquitectura em taipa, que na altura ainda estava em fase de "reinvenção". Era uma descoberta verdadeiramente apaixonante para quem teve o privilégio de a viver.
Eu vejo a casa do Martin, parcialmente construída em taipa, como o coroar de um bairro, também desenhado pelo Martin, que é uma referência incontornável de qualidade urbanística em Vila Nova de Milfontes - a Cerca das Árvores.
A Cerca das Árvores, projecto de 1996, assumiu desde o inicio o compromisso de respeitar o espírito da arquitectura regional alentejana, mesmo que quase todas as casas tenham sido materializadas no sistema construtivo convencional, em tijolo e betão.
Rui Graça - A primeira pergunta que se impõe é, como é que um arquitecto suíço, formado na Suíça, chega ao Alentejo e automaticamente adota a linguagem da arquitectura regional como fio condutor dos teus projetos?
Martin Trueb - Já estava a trabalhar como arquiteto há dois anos na Suíça e na Alemanha, quando surgiu a oportunidade de planear um loteamento em Portugal. Vila Nova de Milfontes não era um lugar estranho pois, como filho de mãe portuguesa, habitualmente passávamos as férias de verão neste lugar idílico. O meu pai, também arquiteto, levava-nos em passeio pelos montados alentejanos à procura de paisagens e casas para pintar as suas aguarelas.
Talvez tenham sido essas excursões pelo concelho de Odemira, que despertaram a minha atenção para a arquitetura tradicional e sobretudo para as construções em taipa. No início dos anos 90, quando cheguei ao Alentejo, conheci os Arquitetos Henrique Schreck, Alexandre Bastos e a Teresa Beirão, referências incontornáveis e impulsionadores para a reutilização desta técnica de construção tradicional. Puseram-me em contacto com construtores locais de São Luís e Relíquias, que também eles estavam num processo de reavivar esta técnica, instruídos pelos Arquitetos, mas sobre tudo pelos mestres de obra de uma geração em que a utilização desta técnica era habitual.
RG - Se é clara a linguagem de arquitectura regional (com telhados com beirado à portuguesa, com recurso a elementos tradicionais como contrafortes, muitas vezes com barras de cor tradicional) há uma utilização desses elementos de tal maneira conseguida que quando estamos nas tuas obras sente-se invariavelmente actualidade. Qual o teu segredo para combinar essa linguagem regional com inovação?
MT - Dito de forma simplificada, penso que a linguagem arquitetónica requer uma atualização constante, adaptando-a a exigências atuais de bem estar de conforto, cumprindo com as normas vigentes. A utilização de técnicas de construção tradicionais e o uso de materiais característicos desta região, podem ser encarados como um desafio para a aplicação em edifícios com uma expressão arquitetónica contemporânea, que resulta numa conjugação harmoniosa. Procuro nos meus projetos esta simbiose ao invés de reproduzir a típica arquitetura regional.
É a tendência que vejo nos Arquitetos recém formados pelas faculdades em Portugal. A adoção de uma linguagem arquitetónica contemporânea com a preocupação de integrar o objeto de uma forma harmoniosa com a envolvência existente.
RG - Um dos temas que temos falado recentemente diz respeito ao interesse de muitos proprietários por casas de arquitectura dita contemporânea (que muitas vezes se resume a coberturas planas e janelas de grandes dimensões). Este fenómeno, no entanto, tem estado infelizmente associado a integrações menos conseguidas e resultado de conjuntos menos harmoniosos. Essa má integração é reconhecida de forma generalizada, por exemplo, na expansão recente do Porto Covo. Que influência achas que o estudo e divulgação da arquitectura tradicional pode representar na aproximação da arquitectura contemporânea aos locais onde se inserem?
MT - Fiz a minha formação na faculdade técnica em Zurique, na Suíça onde o ensinamento na arquitetura é muito orientado pela doutrina do Bauhaus e os exemplos dados pelos grandes nomes dos arquitetos que marcaram essa época crucial na história da arquitetura. Quanto à orientação de estilos, dada pelas faculdades de Arquitetura em Portugal, não vejo diferença significativa para o que me foi ensinado na Suíça.
A arquitetura contemporânea tem-me acompanhado no meu percurso profissional e sinto uma motivação de recorrer a essa expressão estética e adapta-la no contexto edificado. Como qualquer pessoa, sou um observador crítico sem jugar trabalhos realizados por colegas. Acredito que há lugar para uma arquitetura moderna, mesmo nas vilas e aldeias desta região, desde que se enquadre de uma forma harmoniosa no contexto pré-existente.
RG - Talvez por a minha mulher ser austríaca, eu contacto com muitos estrangeiros na nossa região e testemunho que grande parte deles se interessa e valoriza a nossa arquitectura regional. Estou convencido que o Martin, como estrangeiro, também confirma este fenómeno. Na tua opinião, qual a razão para a nossa arquitectura, muitas vezes, brilhar mais nos olhos dos estrangeiros do que nos olhos portugueses?
MT - Se falarmos da arquitetura regional, não partilho a opinião de que é mais valorizada pelos estrangeiros do que pelos Portugueses. Sinto um grande orgulho nos Portugueses, por tudo o que é próprio duma região e do país em geral. As tradições são tal forma marcadas no povo Português, que se identifica com a cultura em geral, como não vejo noutro país.
É verdade que tenho tido muitos clientes estrangeiros, que me procuram, possivelmente por eu falar a mesma língua e se sentirem por isso mais seguros para serem acompanhados na selva demasiado burocrática, para quem chega de fora. É natural que esses estrangeiros valorizem o que é típico deste país e desta região, porque é essa a motivação para se estabelecerem aqui.
Tenho observado, que a maior parte dos estrangeiros chega ao Alentejo com a vontade de se adaptarem aos hábitos locais e mesmo não conhecendo a taipa como material de construção, demostram abertura para a adoção desta técnica na realização das suas casas.
Observo que os clientes estrangeiros têm outras prioridades de conforto para as suas casas, como cuidados especiais para controlar a humidade ou o bom aquecimento com recurso a fontes renováveis.
Esta tendência e de forma crescente, verifico recentemente também nalguns Portugueses, sensibilizados por temas de cuidados ambientais, que se reflete numa aceitação de materiais de construção naturais e recicláveis, mesmo sabendo que esta opção se possa refletir num aumento do custo da obra.
RG - Precisamente quanto ao custo das obras, na tua qualidade de arquitecto mas também de suíço (os suíços são reconhecidamente sensíveis às questões económicas), que balanço fazes dos custos da taipa e como justificas o facto de muitos turismos rurais (da tua autoria lembro-me pelo menos de dois, o "Três Marias" do teu irmão e o "Gotas de Luar") optarem pela taipa nos seus negócios.
MT - Na verdade, não vejo vantagem económica na utilização da taipa como material de construção. Esta técnica exige muita mão de obra que, como se sabe, tem vindo a aumentar de preço exponencialmente. Trata-se de uma construção morosa, tendo em conta todo trabalho da preparação da terra, o enchimento gradual dos taipais com a mistura de terra em camadas e com a compactação manual. A parede requer tempo de secagem, o que se reflete num prazo de execução da obra mais alargado.
Uma vez que as paredes em taipa têm uma maior espessura, comparando com a construção convencional de parede dupla de tijolo, estas paredes exteriores reduzem a área útil de construção, mesmo havendo benefícios em alguns concelhos que concedem um bónus de área bruta de construção para quem opte por esta técnica.
Na construção da taipa tradicional, as paredes tinham por regra 50cm de espessura. Hoje em dia, esta medida não cumpre as atuais normas de isolamento térmico. Há várias formas para resolver esta lacuna. No caso de se querer utilizar apenas taipa, será necessário, uma parede exterior com no mínimo 65cm de espessura para garantir o cumprimento com os requisitos normativos. Em alternativa é possível acrescentar à taipa um capoto de isolamento térmico, o que a meu ver descaracteriza a homogeneidade da parede exterior em terra como material puro e sustentável.
Fazendo contas aos custos da obra há vinte anos atrás, pode-se concluir que a utilização da terra com origem do local da obra, compensava o prazo alargado de execução e os custos acrescidos da mão de obra. Hoje em dia, uma obra em taipa excede o custo de construção, face a uma técnica convencional com paredes duplas e um isolamento térmico e acústico equivalente ao da taipa.
No entanto, acredito que uma construção em taipa pode ser economicamente vantajosa se for utilizada e exposta como imagem de uma exploração turística. É por via da estética da terra como elemento natural, por exemplo para um Turismo Rural, recorrendo a um material 100% reciclável, que se alcança a atenção do utilizador cada vez mais sensível à necessidade de sustentabilidade em tudo o que nos rodeia.
Conclusão
É evidente que a construção em taipa, outrora generalizada por todo o Alentejo, lamentavelmente é hoje uma forma de construção demasiado elitista. Pelo que o Martin disse esse elitismo pode estar relacionado com dois factores distintos: por um lado alguma falta de informação sobre o possível equilíbrio entre a construção e o meio ambiente, natural e cultural, diria eu, por outro lado a nossa fraca capacidade económica perante uma técnica que viu aumentar os seus custos significativamente nos últimos anos.
Num Alentejo com uma crescente valorização do turismo, parece-me sempre pouco ambicioso não divulgar, incentivar e investir nas virtudes da nossa construção regional.
Quanto à importância da informação sobre possíveis formas mais sustentáveis de construção, obviamente que não posso estar mais de acordo. Acho mesmo que essa informação é tanto mais válida quanto mais transversal e sem tabus. Por isso mesmo não só ganharemos todos se conseguirmos envolver toda a comunidade nesta discussão, como ganharemos ainda mais se tivermos a capacidade de analisar criteriosamente os bons e maus exemplos, sem julgamentos, como diz o Martin, já que a arquitectura é uma área com fortes pressões económicas, sociais e políticas, mas assumindo aprender com a experiência, fazendo com que os erros não se repitam e que os bons exemplos façam escola.
Quando aos custos de construção, as exigências térmicas dos regulamentos em vigor, como o Martin bem explicou, têm estrangulado a construção em taipa pelas exigências que acarretam (apesar de ser assumido por vários engenheiros e investigadores que os critérios em vigor para o cálculo térmico não têm em conta as virtudes próprias da terra como material de construção: a sua inércia, a sua permeabilidade ao ar ou a sua capacidade de estabilizar a humidade relativa). Uma atenção especial à taipa ou mesmo um regime excepcional parece-me mais do que justo pela contribuição que essas construções podem representar na valorização das regiões onde se inserem.
Muitos portugueses não sabem mas, na segunda metade do século XX, Portugal teve um cavaleiro, Nuno Oliveira, considerado um dos melhores cavaleiros do mundo. Este cavaleiro tem uma frase sua inscrita no picadeiro coberto da Golegã que considero bastante inspiradora, "se Deus me deu um talento deu-me com ele uma responsabilidade, montar e ensinar a montar como Deus quer". O mestre Nuno Oliveira acabou por passar grande parte da sua vida em França, país onde publicou a maioria dos seus livros, e acabou por morrer na Austrália, assumidamente por não sentir reconhecimento da sua arte no próprio país.
Há no entanto uma diferença entre a equitação e a arquitectura que nos deve fazer reflectir: Ao contrário da equitação, a arquitectura é uma arte que está indissociavelmente ligada ao território, ou seja, se não dermos valor às virtudes da nossa arquitectura, na nossa região, de certeza que elas não se vão manifestar em França ou na Austrália.'