Páginas

06 maio 2024

Glossário de Construção em Terra_Tempo de Secagem

Tempo de Secagem

É a operação ou intervalo de tempo compreendido entre a aplicação de um determinado material e a sua secagem completa, consolidando ou fixando em profundidade.

O processo de secagem é muito importante para a qualidade de produção ou intervenção de reabilitação de uma parede de terra, variando nas suas diferentes técnicas, pelo que deve ser bem compreendido e acompanhado em fase de obra, e na utilização e/ou manutenção do edificio em terra crua.

No caso da construção em taipa, aquando do processo de compactação, a terra pré-preparada do tipo areno-argilosa deverá conter cerca de 5 a 8% de humidade, valor variável de acordo com a curva granulométrica e o tipo de argilas presente na mistura, formando uma massa heterógenea, húmida e com a plasticidade da argila, nunca demasiado molhada.

Ao contrário do betão, que cura e ganha rigidez totalmente por meio de uma reação química interna e irreversível, mas que permite após o fabrico, estimar a resistência máxima, por processos de controlo, possível apenas ao fim de vinte e oito dias (mantendo o material elevada rígidez, e ponte de transferência higrométrica, mineral e térmica), uma parede em taipa, compacta e heterogénea, com elevada inércia térmica e excelente isolamento acústico, internamente em termos de humidade, nunca deverá secar totalmente. 

A parede em taipa mantém na sua ‘alma’ um valor de humidade interna, que garante a coesão base e que serve de veículo para a sua principal característica de regulador higrométrico / inércia térmica. Neste sentido, em termos de resistência, por se tratar de um bloco areno-argiloso, este atinge um endurecimento ‘optimum’ (não necessariamente o máximo), após a compactação e aquando da retração das argilas por secagem natural, e que pode variar à medida que esta tem lugar. 

tempo de secagem depende principalmente: 

- das condições climatéricas do local da obra no momento da construção (se nos 38-40ºC do Verão do interior ibérico ou nos 10-15ºC do Inverno chuvoso do litoral atlântico); 

- da composição granulométrica;

- da utilização ou não de aditivos de estabilização;

- e claro, da espessura total das paredes (podendo variar de 45 a 70 cm).

Neste processo, o bloco / parede de taipa diminui cerca de 1% em volume, devido à retração/consolidação, e visível sobretudo nas suas juntas verticais (espaços facilmente preenchíveis e/ou reparados) e a coloração geral da parede ficará substancialmente mais clara na secagem.

Este espaço de tempo pode variar de 2 a 4 semanas (secagem superficial), ou seja, após a descofragem e para suportar em pleno as cargas/esforços atuantes na construção, a taipa deve ter no mínimo 14 dias de idade e estar plenamente seca ao toque. 
A parede levará no entanto aprox. 6 a 12 meses para atingir a referida humidade interna mínima de equilíbrio, e antes da aplicação de rebocos e pinturas definitivas. 
Se falamos de uma taipa que contém na sua mistura / composição aditivos estabilizantes naturais, ao tempo de secagem estará associado  um período de cura, que deverá ocorrer, variando de acordo com as recomendações para o estabilizante empregue, por um período mínimo de sete (7) dias, no caso de aditivos naturais. Caso a taipa estabilizada contenha um aditivo hidráulico cimentício (não ecológico e apenas eficiente mecanicamente com percentagens reduzidas, de 6 a 8%), e caso não existam recomendações especifícas no projeto de estruturas, ela deve ter no mínimo vinte e oito (28) dias de idade.
As formas de cofragem podem no entanto ser desmontadas logo após o término da compactação da mistura no bloco.

Neste sentido é considerada uma boa prática construtiva in situ executar as paredes em linhas de avanç ohorizontais ou por fases, permitindo alguma secagem, a natural retração e endurecimento, previamente à aplicação estrutural de lintéis de bordadura e coroamente, o encosto de pilares, contrafortes (os tradicionais 'gigantes') ou mesmo pré-esforços verticais e horizontais, ou mesmo antes de compactar outros blocos acima destes.

ventilação (fluxos de ar/humidade transversais) e a luz solar direta são também fatores relevantes considerar na secagem das paredes. Como impacto negativo eles podem causar uma secagem irregular dos blocos, originando patologias  como os arqueamentos ou empenos diferenciais dos paramentos.

Assim, é importante considerar em paralelo, sempre que necessário, em projecto e/ou em fase de obra, reforços de sustentação dos blocos mais expostos a esforços transversals, bem como a manutenção nestes da cofragem durante a fase inicial de secagem. 

Para além destes reforços e, num contexto de condições climatéricas mais adversas, com chuva e neve persistentes, de modo a preservar a taipa da exposição e humedecimento prolongados à água, será de considerar a protecção   contra as intempéries dos topos de paredes de taipa desenformadas durante a obrae a cobertura / revestimento,  com recurso a mangas plásticas hidrófugas, salvaguardando deste modo o respaldo ou 'alma' da taipa, e desde que assegurem o comportamento higroscópico da parede.

Numa fase posterior deste momento da intervenção, poderá considerar-se a aplicação de rebocos, desejavelmente compatíveis e bem ventilados, bem como enquadramentos de taipa à vista, que permitam à parede ‘respirar’, secando naturalmente e deste modo de forma mais homogénea.

ArquitecturasdeTerra Maio2024

Sem comentários: