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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Exemplos_Polluted Pottery | Cerâmica poluída

Polluted Pottery | Cerâmica poluída
(PT)
Embora a terra, o material e a tecnologia que compõe o solo sob os nossos pés, seja considerado o mais ecológico de todos os materiais, é também como qualquer outro, um material cujas propriedades podem ser poluídas por desastres ou catástrofes naturais ou causados ​​pela acção humana.
Alguns artistas exploram este facto para criar objetos que nos interrogam sobre o impacto do Homem sobre os recursos, mesmo os inertes, e os seus efeitos nefastos, muitas vezes invisíveis, de poluíção nos objectos que nos rodeiam.

A Materialidade de um Desastre Natural
Após um enorme terremoto em Daiichi, Fukushima no Japão, um tsunami de 15 metros desativou o fornecimento de energia e o arrefecimento brusco de três reatores de Tohoku, causando um acidente nuclear a partir de 11 de março de 2011. 
A artista sueca Hilda Hellström criou em 2012 um conjunto de 5 potes para armazenar de alimentos feitos com terra radioativa da área do desastre nuclear.
Neste sentido, contactou com Naoto Matsumura, o último agricultor local que ainda vivia dentro da zona de evacuação, e coletou solo dos seus campos de arroz que não podem até hoje ser cultivados devido à contaminação.


Hellström explora e aprofunda a noção entre o Objeto Mítico e o que se chamou de Objeto transicional (Winnicott), ou seja, como este por mais simples ou usual que seja, por força de significado (memória) pode ser um suporte para o desenvolvimento de conhecimento interior, abrindo caminhos de compreensão e sentido para mundo ao nosso redor.
Como aquele peluche tão importante que nos ensina em criança a interagir e abraçar, ou o cachimbo velho que nos lembra sempre do avô querido.
O objetivo deste projeto de investigação artística intitulado 'A Materialidade de um Desastre Natural' no Royal College of Art, foi de forma semelhante, criar daquele barro poluído um objeto que nos fala de um evento devastador, muito maior e relevante do que o próprio objeto e que habita uma narrativa que vai muito além da sua forma ou função visíveis.
Para Hilda Hellström existem lugares e pessoas que habitam narrativas geo-específicas e têm uma história com a qual todos podem se identificar. E se formos capazes de extrair 'materia' destas pessoas ou destes lugares e criar objetos deste material? Esses objetos poderiam servir ou tornar-se objetos míticos?
Um documentário retratando o dia-a-dia de Matsumura acompanhou os objectos em exposição.

Rare Earthenware - Unknown Fields
Da mesma forma, o estúdio de Design Unknown Fields Division utilizou lamas de um lago tóxico bem longínquo, nas estepes da Mongólia Interior para criar um conjunto de três vasos no famoso estilo Ming chinês.
Este estúdio londrino, criado por Kate Davies e Liam Young, colaborou com o ceramista Kevin Callaghan para formar os três vasos 'radioativos' a partir do lixo tóxico gerado para a produção de dispositivos eletrônicos como smartphones e laptops, para além da criação de uma curta-metragem sobre todo o processo.
https://youtu.be/YMKJ7S7fKOk
“Os minerais de terras raras são alguns dos ingredientes fundamentais da eletrônica contemporânea”, disse Young. “Por exemplo, um smartphone contém até oito terras minerais raras diferentes. Tudo, desde o material usado nos chips e baterias até aos pixels do seu ecrãn ou o esmalte e a sílica utilizados no seu vidro.”
Estranho? Irónico, assustador até, não acham? 
Pois estes objectos 'míticos' interrogam-nos para o futuro sobre o sentido dos nossos actos, mas também nas 'pegadas' que (in)conscientemente deixamos no planeta. Essa interrogação fica bem expressa nestas peças artísticas, produzidas à mão, escuras e cruas, comprometidas connosco.

Leiam mais aqui sobre o trabalho de Hilda Hellström.
Leiam mais aqui sobre os Vasos Ming Radioativos.

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